terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Festival de Berlim 2018 - crítica: "Don’t Worry, He Won’t Get Far on Foot"

(Don’t Worry, He Won’t Get Far on Foot, de Gus Van Sant)
Joaquin Phoenix em "Don’t Worry, He Won’t Get Far on Foot"

"Don’t Worry, He Won’t Get Far on Foot" (ou Não se Preocupe, Ele Nao Irá Longe a Pé): o título, que se refere a um personagem que anda em cadeira de rodas, já indica com perfeição o tipo de humor presente no longa de Gus Van Sant. Joaquin Phoenix interpreta o cartunista americano John Callahan, um sujeito de físico e personalidade extravagantes, que ficou famoso por suas charges hoje tidas por politicamente incorretas, mas que, nos anos 70, faziam sucesso (ainda que já ali causassem polêmica) na imprensa americana.

Alcoólatra e depressivo, Callahan ficou tetraplégico depois de um desastre de carro após uma noitada de bebedeira inconsequente. Mas mesmo depois disso, encarava suas próprias adversidades por meio da autoironia e do humor cáustico. E em suas tirinhas, falava de suas próprias mazelas, mas também de pecadilhos (ou mesmo problemões) de outros membros da sociedade – inclusive grupos historicamente oprimidos.

Seu estilo era ferino, mas havia sempre sofisticação em suas piadas (inclusive pela leveza de seus traços, que eram elegantes, finos). Exagerava de vez em quando, e por isso mesmo colecionou inimizades e leitores furiosos, mas jamais tinha a intenção de humilhar ou tripudiar sobre seus alvos. Era apenas um excelente observador do ser humano e de seus comportamentos, que nem sempre sabia filtrar o que pensava.

Van Sant traz ao filme aquela que possivelmente seria a única maneira de abordar esse personagem: também pela via do humor, bem ao estilo de Callahan. Ri-se de tudo e de todos, não com o sentido de menosprezar ninguém, mas no intuito de levar a vida (que já é tão difícil, às vezes terrível), sem tanta solenidade. (Neste ponto, o filme tem parentesco com "Eu, Tonya" – e, assim como o longa de Craig Gillespie, certamente sofrerá com a rejeição de alguns.)

"Don’t Worry" não tem compromisso com fazer média com ninguém. E é um filme que fala das cosias como elas são, dentro da mesma verve observadora e sem pudores de John Callahan. Quando Van Sant mostra o cartunista ainda antes de seu acidente, curtindo a vida em suas bebedeiras, não existe um olhar moralista ou repreensivo de suas farras, como se as recriminasse por serem culpadas de sua desgraça futura e da quase destruição de sua vida. Ao contrário: o filme assume que a boemia irresponsável é, sim, fascinante, divertida. Pode acabar com a saúde e a sanidade de muitas pessoas (o roteiro nunca nega isso), mas a farra etílica traz inegavelmente momentos de alegria intensa e alta sociabilidade, e a câmera sempre solar, colorida, de Van Sant não se furta de mostrar tudo isso. As bebedeiras são paraísos artificiais? Sem dúvida, mas o filme não esconde que são paraísos, ainda assim; é raro ver um longa tão destemido em mostrar essa faceta do álcool, sem nenhum traço de culpa.

Nesse sentido, a atitude de Van Sant vai radicalmente contra a um certo cinema moralizante, careta até, que demoniza a diversão como se fosse um pecado, apenas. Ao contrario de um filme como "La Prière", apresentado há dois dias em Berlim, em que Cédric Kahn assume um tom professoral e condenatório dos prazeres da carne, "Don’t Worry" reconhece que se subterfúgios como álcool e drogas são tão procurados por pessoas com problemas é porque existe uma razão para isso. São prazerosos, não se pode negar.

E é esse mesmo tipo de visão de mundo tão presente no espírito e na obra de Callahan que sustenta o longa de Van Sant: sua postura é a de não negar o que o mundo tem de belo (e ao mesmo tempo destrutivo) e também não camuflar o que ele possui de desagradável (mas que é o que mantém a vida possível). "Don’t Worry" é um filme que busca sempre a sinceridade e as coisas como elas são.

O próprio protagonista, a certo ponto, desiste de encobrir seus próprios problemas e sai à caça de uma compreensão honesta, limpa, de suas questões mais íntimas. Por grande parte do filme, somos levados a crer que ele bebe muito por causa de questões freudianas, envolvendo a ausência da mãe, mas felizmente o longa abandona posteriormente essa explicação fácil e banal e reconhece que os traumas de infância são apenas uma parte de um todo mais complexo. Também temos responsabilidade na forma como elaboramos nossos dramas, nos diz o filme. Mas o longa jamais prega a automartirização: defende que, no instante em que nos reconhecemos como culpados de parte de nossos problemas, é essencial dar um passo além e tentar nos perdoar pelos nossos erros. Até para podermos viver com alguma qualidade, sem fantasmas.

Van Sant conduz o filme com uma enorme desenvoltura por grande parte do tempo; a montagem (sobretudo no começo) é prodigiosa, e o filme tem um tipo de wit que só o tornam mais prazeroso de assistir. Há zooms estrategicamente utilizados e enquadramentos que o cinema de Van Sant há anos não conseguia tornar tão fluidos e pouco afetados. Mas na reta final, infelizmente o diretor perde o controle várias vezes do filme; o tom fica mais meloso do que deveria (e algumas cenas dramáticas se prolongam demais; se o longa fosse enxugado antes de chegar às salas só teria a ganhar).

Ainda é preciso dizer que Joaquin Phoenix é o maior ator que Hollywood viu desde Daniel Day-Lewis? Mas a atuação soberba dele aqui está muito bem acompanhada de uma equipe extraordinária de coadjuvantes, entre os quais se destacam Jonah Hill, como um guru da desintoxicação, e a cantora Beth Ditto, como um dos membros do grupo de ex-alcoólatras.

"Don’t Worry" é acima de tudo sobre uma certa maneira de encarar as adversidades. É um filme que opta pela luminosidade para abordar questões trevosas. Apesar de sua irregularidade, resulta em mais do que um filme belo e divertido: é também uma lição de vida.  


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