domingo, 18 de fevereiro de 2018

Festival de Berlim 2018 - críticas: "Figlia Mia" / "La Prière"

(Figlia Mia, de Laura Bispuri)
O elenco do longa italiano "Figlia Mia"

Costuma ser problemática a noção de que certos filmes só poderiam ser feitos por um homem ou por uma mulher. Mas existem alguns casos em que a diferenciação de sensibilidades (e mesmo de escolha das situações exibidas) é tão evidente que nos faz pensar que haveria mesmo uma visão especificamente masculina e outra feminina no cinema.

"Figlia Mia" foi dirigido por Laura Bispuri, e me parece altamente improvável que um homem pudesse imaginar um filme sequer próximo do que a italiana apresentou neste domingo na Berlinale. É sobre uma garota que mora na Sardenha, filha de uma mãe irresponsável e hedonista (Alba Rohrwacher), mas que é adotada ainda bebê por outra mulher, bem mais sisuda e maternal (Valeria Golino). A mãe que cria dá duro para providenciar boas condições de vida à garota, e afeto e carinho são as últimas coisas que lhe faltam.

Mas quanto mais cresce, a menina mais se afasta da mãe de criação e, por uma espécie de instinto, de afinidade, aproxima-se cada vez mais da biológica. A mãe meio maluca, beberrona e ultrassexuada, traz uma série de dados (físicos, inclusive) que a de criação não possui; o poder de atração via DNA é forte demais para que qualquer empecilho evite que a criança chegue perto dela. A situação gera uma crise, com rompantes de ciúme, mas a tensão entre as duas mães e aquela filha tem alguns elementos inexplicáveis e especificamente femininos demais para que eu possa explicar de maneira racional o que acontece.

O longa tem aquele tipo de fisicalidade que só a luz dos países mediterrâneos permitem. As imagens são meio desfocadas, trêmulas, e as cores são sempre berrantes, alguns tons mais fortes e desreguladas do que diriam as regras do "bom gosto" clássico (as tonalidades poderiam ter sido escolhidas pela mãe bêbada vivida por Rohrwacher). "Figlia Mia" é um filme de instinto, de sensações. É uma visão de mundo extraordinariamente original sobre relações entre mãe e filha.

Há uma cena em que a garota pergunta à mãe biológica: “Você me abandonou quando eu era pequena porque eu era feia e burra?”. Ao que ela responde: “Exatatamente. Se bem que, com o tempo, você melhorou um pouquinho nesse aspecto”. É o tipo de conversa que endossa a ideia de que um homem jamais poderia ter feito este filme – pela própria experiência entre mãe e filho (homem), é um tipo de resposta que alguém do sexo masculino talvez achasse imoral demais; é bem provável, aliás, que jamais sequer cogitasse ser possível esse tipo de resposta. Mas entre as mulheres, as relações são diferentes, e há certas coisas que não precisam ser explicadas. Uma filha que ouvisse isso da mãe provavelmente não levasse a resposta tão a sério – e, como a personagem do filme, talvez soubesse até rir disso (um filho homem, ao contrário, talvez ficasse traumatizado para o resto da vida).

Alba Rohrwacher é uma atriz versátil, mas não costuma ser muito natural em praticamente nenhum de seus papeis; ainda assim, ela sempre consegue ser convincente. Desta vez, surpreendentemente ela flui bem do início ao fim no papel da mãe maluca. Valeria Golino (cada vez mais bela) está esplêndida no papel da mamma mais afetuosa – que, por outro lado, também é capaz de certas crueldades com a filha e a rival (ela faz questão de mostrar à menina uma cena em que sua concorrente faz uma felação em um homem em um bar de ponta de rua).

O filme é cheio de desacertos, principalmente no trecho final. Mas é tão surpreendente (ao menos para uma visão masculina) que tem um gosto supremo de novidade. Se Bispuri, da outra vez que veio a Berlim, deixou o festival de mãos vazias (com "La Vergine Giurata", que era um dos favoritos a prêmios), desta vez as chances de ela deixar o evento com algum Urso me aprecem imensas – inclusive um dividido entre Rohrwacher e Golino.

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(La Prière, de Cédric Kahn)

Cena de "La Prière"

O novo filme de Cédric Kahn , "La Prière", é sobre um jovem viciado em drogas que vai parar a contragosto em um centro religioso, onde passará por uma reabilitação. Após alguns meses (e uma forte crise de fúria que quase se converte em uma recaída), o rapaz consegue reaver o domínio sobre o próprio vício. Depois de um dramático acidente em uma montanha (que quase lhe custa a vida), um milagre o salva; o moço tem ali uma epifania de que ele deve se tornar um padre.

É bem provável que, no campo das intenções, o filme não seja tanto sobre o catolicismo e o poder da religião na cura da alma das pessoas; é possível que o intento de Kahn fosse o de mostrar que o apego forte a alguma coisa (ou a fé pura e simples, não necessariamente religiosa) é capaz de coisas inexplicáveis. Mas o diretor cai no mesmo erro que Martin Scorsese incorreu no ano passado com seu lastimável "Silêncio": sem se dar conta, seu filme quase vira uma instrumento de propaganda católica.

Há cenas extensas em que os personagens ou falam testemunhos sobre como a religião os ajudou a superar o vício ou então sequências tediosas mostrando intermináveis rituais católicos (inclusive jovens cantando músicas bastante aborrecidas de grupos de igreja). O que exatamente Kahn estaria querendo mostrar ao dar tanta ênfase a tudo isso? Que tipo de beleza será que ele enxerga em toda essa chatice?

O ator principal, Anthony Bajon, é bastante eficiente – tem um olhar expressivo, assustado porém intenso e firme quando preciso. Mas afora isso, o filme não tem muita coisa de interessante – é verdade que tem Hanah Schygulla, mas ela aparece pouco demais (no papel de uma freira). Apesar de correto enquanto realização, “La Prière” é um filme sem brilho e que cheira a velharia.

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