quinta-feira, 10 de maio de 2018

Cannes 2018 - Crítica: "Plaire, Aimer et Courir Vite"

Plaire, aimer et courir vite, de Christophe Honoré

Cena do filme de Christophe Honoré
Com "Plaire, Aimer et Courir Vite", Christophe Honoré faz essencialmente um filme sobre o orgulho gay. Mas não no sentido corrente do termo, da defesa da autoaceitação e da disseminação entre os homossexuais de que não há nada errado em amar e sentir atração por pessoas do mesmo sexo. O “orgulho” do filme é em seu sentido mais egocêntrico, mesmo, e diferenciador: o de tomar o estilo de vida homossexual (burguês, obviamente, e de preferência parisiense) como algo do nível do sublime, quiçá até superior aos demais modos de levar a vida.

O filme é pura autocomplacência; a trama se passa em 1993, com foco na vida de um escritor contaminado com o vírus HIV e que sabe que está prestes a perder a boa saúde e a beleza: sua decadência (e morte) é questão de tempo. Em suas atitudes e falas, mostra-se uma personagem insuportável, que compõe o tipo que, a rigor, o meio gay traz de pior: arrogante, manhoso, autoreferenciado.

Mas o filme o apresenta como um sujeito adorável, dignificado em sua cultura livresca e em seu charme de olhos-azuis-e-sorriso-perfeito. Seu egoísmo e suas rabugices são vendidas como parte do pacote altamente reverenciável – e o processo de dignificação é coroado com o truque mais baixo possível: usar a questão da aids como uma forma de ganhar a simpatia e piedade do público – algo que o personagem, por suas características, jamais conseguiria (quando ele, ao telefone, interrompe uma relação sexual de um paquera e começa a discorrer sobre um tediosa categorização sobre “homens loiros”, qualquer um desligaria na cara dele; no filme, porém, o rapaz abandona o sexo e passa a ouvi-lo com alegria, como se estivesse sendo abençoado por tanta “sabedoria” sexual).

O protagonista se apaixona por um rapaz mais jovem, vindo da Bretanha – a rigor, seria um caipirão, mas de uma geração mais aberta e menos marcada por uma vida cheia de limitações pelo preconceito sexual. Mas também este rapaz é elevado a uma categoria superior: quando trai a namorada para exercer sua sexualidade, o filme conclama o público a prontamente perdoá-lo, quiçá admirá-lo por essa façanha. De fato: a sociedade homofóbica exigiu que homens gays levassem uma vida dupla, então a traição de maridos e namorados homossexuais não é tão condenável assim, se pensamos de uma maneira mais contextualizada. O problema é que o longa faz com que a namorada praticamente peça desculpas ao rapaz por sentir ciúme. Logo depois de tomar satisfações, compreende-o, recolhe-se ao “seu lugar” e volta a se render aos encantos do pobre rapaz (e, possivelmente, passa a amá-lo ainda mais depois disso).

Filmes como “Me Chame pelo Seu Nome” e “O Estranho do Lago” também eram, cada um à sua maneira, marcados por um narcisismo homossexual no tratamento dos personagens e situações. Mas Luca Guadagnino, por exemplo, jamais colocou seus personagens como se fossem criaturas que estivessem acima do resto da humanidade. Por acaso eram homens belos, ricos e inteligentes, mas em nada isso era um princípio para torná-los reverenciáveis. O foco ali era apenas em representar (com uma câmera sensualista, focada no masculino) uma paixão, um amor de verão entre dois homens, que só se realizaria em um meio abastado, privilegiado; fora dali, o filme não existiria.

Já o longa de Alain Guiraudie, por sua vez, era uma exaltação da condição gay, sim, mas em outros termos: na observação quase antropológica dos rituais e códigos nos ambientes de pegação homossexuais, sua preocupação era antes de mais nada a de abordar o que de específico e tão estimulante o mundo sexual gay possui, em termos de carnalidade e de fantasias (inclusive por serem resultantes de uma sexualidade exercida a partir de uma interdição – e, logo, mais complexa e intensa). Mas o filme em nenhum momento exigia que se “adorassem” as personagens – apenas mostrava o que de excitante o universo gay possuía a ponto de fazer seus membros correrem altos riscos em nome da satisfação sexual. Ademais, o longa em nenhum instante negava o lado mais nefasto da vida gay nos pontos de cruising; não escondia nada.

Filmes como “Plaire, Aimer et Courir Vite” são a face menos politizada e de apelo mais fácil do cinema sobre personagens LGBT; é glamurização e estetização feita para agradar sem correr riscos. O filme tem ainda vários outros defeitos formais, e a falta de unidade habitual no cinema de Honoré é apenas uma delas (aqui, incorre no problema típico de quem inclui uma série de situações recolhidas da vida real - provavelmente da vida dele mesmo: no roteiro, muitas cenas parecem aleatórias e não formam um sentido completo com o resto do filme).

E o longa é interminável, só conseguindo algum efeito realmente poderoso quando manipula o público. Ou quando o ótimo Denis Podalydès, como um gay mais velho e humano, aparece, fazendo um contraponto tragicômico. Quando ele surge, todo um lado bem menos vistoso da vida queer vem à tona: o da solidão real (e não a de um discurso autocomplacente), da decadência física não estetizada. Se fosse ele o protagonista, o longa seria bem mais honesto com a realidade gay e certamente mais interessante.  Mas aí seria um outro filme – e esse, provavelmente, Honoré não teria o menor interesse em realizar e mostrar.

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