quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Crítica: "Todos os Mortos"

 (dir. Caetano Gotardo, Marco Dutra, 2020)


Cena do filme "Todos os Mortos"

*A crítica abaixo foi publicada originalmente na Folha de S.Paulo, em 24 de fevereiro de 2020 (no site do jornal, foi postada no dia anterior), na ocasião da estreia mundial do longa, no Festival de Berlim.

BERLIM Todo artista tem (ou deveria ter) o direito a se expressar sobre o tema que bem quiser. A sensibilidade moderna, porém, passou a exigir de uns tempos para cá que ficasse claro o lugar social de onde esse artista fala —mas a liberdade criativa, a priori, continuaria a mesma.

Isto posto, tudo bem que dois homens, brancos, de classe média, tenham o direito de fazer um longa sobre o peso do passado escravocrata na sociedade brasileira de hoje. Mas surge a questão: seria um ponto de vista adequado?

Se for um filme como “Todos os Mortos”, a resposta é também uma pergunta: por que não? O longa dirigido por Marco Dutra e Caetano Gotardo —homens, brancos, de classe média— fala de questões estruturais da sociedade brasileira, mas que não são apresentadas pelo viés de uma experiência em primeira pessoa, seja a da família negra, os Nascimento, ou mesmo a da branca, os Soares.

O desenvolvimento psicológico dos personagens não é o centro do interesse do filme. Eles representam, antes, aspectos gerais da sociedade brasileira —são mais propriamente metáforas, ilustrações de traços da brasilidade, do que pessoas de carne e osso. 

“Todos os Mortos” é uma análise sobre o quanto o Brasil do século 19 é, em essência, o Brasil do século 21. Claro que muita coisa mudou nestes mais de cem anos, mas a tese do filme é a de que, em termos gerais, a sociedade brasileira continua basicamente a mesma.

Como o filme lida exatamente com termos gerais, e não tanto com especificidades próprias à experiência pessoal, o único “lugar de fala” que seria verdadeiramente “adequado”, os dois cineastas possuem: são brasileiros. Porque nesse caso, sem uma compreensão de quem observa de perto o Brasil, provavelmente o filme seria inviável —ou, em última análise, seria menos completo.

Aliás, talvez seja um filme brasileiro até demais, e a frieza com a qual foi recebido em sua primeira exibição em Berlim de certa forma atesta isso. Durante a projeção de estreia na Berlinale, no sábado (22) à noite, voltada para a imprensa, alguns jornalistas deixaram a sala antes do fim. Ao final, ouviu-se apenas meia dúzia de palmas pingadas.

Alguns filmes instigam nas plateias internacionais reações fortemente viscerais, mesmo que ela não compreenda por completo o que vê na tela —“Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho, é um bom exemplo disso. Nesse sentido, “Todos os Mortos” está em uma linhagem mais próxima de “Joaquim”, de Marcelo Gomes, último longa brasileiro a disputar o Urso de Ouro, em 2017 —e que também não causou grande impacto na Berlinale.

Ambos lidam com dados que exigem um certo conhecimento e uma elaboração intelectual sobre a realidade brasileira para que cause uma comoção mais intensa. Um estrangeiro talvez nem sempre esteja munido das mesmas ferramentas de decifração que alguém que conhece bem o Brasil.

Mas o público brasileiro há de apreciar o filme, que tem um conceito extremamente bem sacado: mostra um Brasil do presente (o espaço urbano paulistano, que inicialmente parece a cidade ainda provinciana dos tempos da cafeicultura, aos poucos revela ser o da selva de pedra atual), mas com personagens do passado. A história começa em 1899, onze anos após a abolição da escravatura. Os Soares são a elite cafeeira branca em decadência. Os Nascimento são ex-escravos, mas largados à própria sorte.

A escravidão acabou oficialmente, mas o fosso entre brancos e negros persevera. Isso se nota mesmo nas frases mais aparentemente inócuas. Em uma cena, uma moça da Casa Grande diz: “Cante uma canção na língua de vocês”. A ex-escrava responde: “Mas eu nasci no Brasil e sempre falei português!”. Ou quando a matriarca branca, em meio a agradáveis encontros ao piano com filho da antiga serviçal, ordena mansamente que a criança vá apanhar algumas folhas no jardim —exercendo, na verdade, um tipo de poder camuflado, ardiloso, mas que essencialmente representa a ordem das coisas de sempre: a madame (tão gentil e boazinha) exigindo ser servida pelo lacaio.    

O filme é composto por diversas pequenas falas e situações que são representativas das relações de poder do Brasil de hoje. E não só as relações de classe ou de diferenciação racial —há também o machismo, o maltrato ao imigrante, a homossexualidade reprimida, o preconceito religioso. Os letreiros de “Todos os Mortos” falam que o filme se passa em 1899, mas tudo o que se vê ali está acontecendo agora, neste exato instante.

Talvez esse seja o grande problema do filme: ele tenta dar conta de temas demais, ser um painel muito amplo de questões brasileiras, e nem sempre a trama criada por Dutra e Gotardo consegue abarcar tudo com habilidade. Há um certo distanciamento, também, gerado pela opção por um estilo de atuação pouco naturalista, com as falas muito encenadas, teatrais. Mas, independentemente de qual tenha sido a ideia por trás, também esse efeito acaba sendo positivo: há algo de ridículo em todas essas situações.

E há uma atmosfera de nonsense espraiada por todo o filme —o Brasil, afinal de contas, é um país surreal. Também isso é bom, porque Dutra (sobretudo) desta forma se distancia um pouco de um uso por vezes fetichista do cinema de gênero; as cenas em que há uma tentativa de incorrer no thriller ou no horror surgem naturalizadas —são parte da loucura geral do filme.

“Todos os Mortos” é uma obra especial, à parte na seleção da Berlinale —talvez até na produção brasileira recente. Nem tudo funciona, mas há tanto de Brasil ali que a tela é como se fosse um espelho. E, no final das contas, todos os mortos estão vivos —e eles somos nós, os brasileiros.