quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Crítica: "Todos os Mortos"

 (dir. Caetano Gotardo, Marco Dutra, 2020)


Cena do filme "Todos os Mortos"

*A crítica abaixo foi publicada originalmente na Folha de S.Paulo, em 24 de fevereiro de 2020 (no site do jornal, foi postada no dia anterior), na ocasião da estreia mundial do longa, no Festival de Berlim.

BERLIM Todo artista tem (ou deveria ter) o direito a se expressar sobre o tema que bem quiser. A sensibilidade moderna, porém, passou a exigir de uns tempos para cá que ficasse claro o lugar social de onde esse artista fala —mas a liberdade criativa, a priori, continuaria a mesma.

Isto posto, tudo bem que dois homens, brancos, de classe média, tenham o direito de fazer um longa sobre o peso do passado escravocrata na sociedade brasileira de hoje. Mas surge a questão: seria um ponto de vista adequado?

Se for um filme como “Todos os Mortos”, a resposta é também uma pergunta: por que não? O longa dirigido por Marco Dutra e Caetano Gotardo —homens, brancos, de classe média— fala de questões estruturais da sociedade brasileira, mas que não são apresentadas pelo viés de uma experiência em primeira pessoa, seja a da família negra, os Nascimento, ou mesmo a da branca, os Soares.

O desenvolvimento psicológico dos personagens não é o centro do interesse do filme. Eles representam, antes, aspectos gerais da sociedade brasileira —são mais propriamente metáforas, ilustrações de traços da brasilidade, do que pessoas de carne e osso. 

“Todos os Mortos” é uma análise sobre o quanto o Brasil do século 19 é, em essência, o Brasil do século 21. Claro que muita coisa mudou nestes mais de cem anos, mas a tese do filme é a de que, em termos gerais, a sociedade brasileira continua basicamente a mesma.

Como o filme lida exatamente com termos gerais, e não tanto com especificidades próprias à experiência pessoal, o único “lugar de fala” que seria verdadeiramente “adequado”, os dois cineastas possuem: são brasileiros. Porque nesse caso, sem uma compreensão de quem observa de perto o Brasil, provavelmente o filme seria inviável —ou, em última análise, seria menos completo.

Aliás, talvez seja um filme brasileiro até demais, e a frieza com a qual foi recebido em sua primeira exibição em Berlim de certa forma atesta isso. Durante a projeção de estreia na Berlinale, no sábado (22) à noite, voltada para a imprensa, alguns jornalistas deixaram a sala antes do fim. Ao final, ouviu-se apenas meia dúzia de palmas pingadas.

Alguns filmes instigam nas plateias internacionais reações fortemente viscerais, mesmo que ela não compreenda por completo o que vê na tela —“Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho, é um bom exemplo disso. Nesse sentido, “Todos os Mortos” está em uma linhagem mais próxima de “Joaquim”, de Marcelo Gomes, último longa brasileiro a disputar o Urso de Ouro, em 2017 —e que também não causou grande impacto na Berlinale.

Ambos lidam com dados que exigem um certo conhecimento e uma elaboração intelectual sobre a realidade brasileira para que cause uma comoção mais intensa. Um estrangeiro talvez nem sempre esteja munido das mesmas ferramentas de decifração que alguém que conhece bem o Brasil.

Mas o público brasileiro há de apreciar o filme, que tem um conceito extremamente bem sacado: mostra um Brasil do presente (o espaço urbano paulistano, que inicialmente parece a cidade ainda provinciana dos tempos da cafeicultura, aos poucos revela ser o da selva de pedra atual), mas com personagens do passado. A história começa em 1899, onze anos após a abolição da escravatura. Os Soares são a elite cafeeira branca em decadência. Os Nascimento são ex-escravos, mas largados à própria sorte.

A escravidão acabou oficialmente, mas o fosso entre brancos e negros persevera. Isso se nota mesmo nas frases mais aparentemente inócuas. Em uma cena, uma moça da Casa Grande diz: “Cante uma canção na língua de vocês”. A ex-escrava responde: “Mas eu nasci no Brasil e sempre falei português!”. Ou quando a matriarca branca, em meio a agradáveis encontros ao piano com filho da antiga serviçal, ordena mansamente que a criança vá apanhar algumas folhas no jardim —exercendo, na verdade, um tipo de poder camuflado, ardiloso, mas que essencialmente representa a ordem das coisas de sempre: a madame (tão gentil e boazinha) exigindo ser servida pelo lacaio.    

O filme é composto por diversas pequenas falas e situações que são representativas das relações de poder do Brasil de hoje. E não só as relações de classe ou de diferenciação racial —há também o machismo, o maltrato ao imigrante, a homossexualidade reprimida, o preconceito religioso. Os letreiros de “Todos os Mortos” falam que o filme se passa em 1899, mas tudo o que se vê ali está acontecendo agora, neste exato instante.

Talvez esse seja o grande problema do filme: ele tenta dar conta de temas demais, ser um painel muito amplo de questões brasileiras, e nem sempre a trama criada por Dutra e Gotardo consegue abarcar tudo com habilidade. Há um certo distanciamento, também, gerado pela opção por um estilo de atuação pouco naturalista, com as falas muito encenadas, teatrais. Mas, independentemente de qual tenha sido a ideia por trás, também esse efeito acaba sendo positivo: há algo de ridículo em todas essas situações.

E há uma atmosfera de nonsense espraiada por todo o filme —o Brasil, afinal de contas, é um país surreal. Também isso é bom, porque Dutra (sobretudo) desta forma se distancia um pouco de um uso por vezes fetichista do cinema de gênero; as cenas em que há uma tentativa de incorrer no thriller ou no horror surgem naturalizadas —são parte da loucura geral do filme.

“Todos os Mortos” é uma obra especial, à parte na seleção da Berlinale —talvez até na produção brasileira recente. Nem tudo funciona, mas há tanto de Brasil ali que a tela é como se fosse um espelho. E, no final das contas, todos os mortos estão vivos —e eles somos nós, os brasileiros.


quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Crítica: "República"

 (dir. Grace Passô, 2020)



É sempre meio incômodo ouvir ou ler por aí que Grace Passô é a “Viola Davis brasileira”. Não é: Viola é uma ótima atriz, mas Grace é melhor ainda. Maior que ela, em atividade no mundo, dificilmente há alguém.

Em “República”, curta que Passô protagoniza e dirige, ela surge grande parte do tempo atuando sozinha, apenas falando ao celular. Cenas com monólogos de uma mulher ao telefone sempre de alguma forma fazem pensar em “A Voz Humana”, texto de Jean Cocteau que é quase um clichê na carreira das grandes atrizes que querem mostrar até que ponto seu talento pode ir. No caso de “A Voz”, é uma conversa entre uma mulher e o amante que acaba de deixá-la, mas embora “República” não tenha absolutamente nenhuma conexão com o intimismo romântico e melodramático do universo do texto de Cocteau, traz um desafio de mesma natureza à atriz principal: exige um grande repertório de expressões faciais e uma prodigiosa capacidade de alternar nuances em uma mesma face – e isso, sem um outro ator em cena para estimular as reações, pode ser algo dificílimo.

O texto de Passô é bem mais curto, e embora isso lhe traga a conveniência de ter menos falas para memorizar, tem também um lado desvantajoso: o material-base lhe oferece muito menos substrato para elaborar suas próprias emoções em cena. Ela precisa buscar dentro de si o gatilho para suas reações.

 “República” mostra uma mulher (sem nome, mas que vamos chamar aqui de Grace) falando com duas pessoas ao celular em momentos distintos: a primeira interlocutora é provavelmente uma amiga; a segunda é a mãe da protagonista. O assunto é tão simples quanto inusitado: um xamã descobre que “o Brasil é um sonho”. Nada da experiência que se tem do país é real; a qualquer momento, seja lá quem estiver “sonhando” o Brasil pode acordar – e, assim, tudo o que nós vivemos e conhecemos sobre nossa nação pode acabar, de uma hora para a outra.

“Graças a Deus!”, diz Grace para si mesma, ao descobrir a verdade, e ela fala isso com uma expressão de alívio tão genuína que o espectador sente uma melancolia algo invejosa por não poder dizer o mesmo. Afinal, quem está vivo e minimamente informado no Brasil de 2020, em tempos em que uma pandemia imprevisível e um governo desumano se unem para tornar a experiência brasileira uma catástrofe, não seria ruim que tudo não passasse mesmo de um “sonho”. Que, aliás, é um termo que não faz lá muita justiça a nossa realidade: teria sido melhor que Passô usasse a palavra “pesadelo”.

O filme é extremamente habilidoso como peça de suspense ou mesmo de horror. Há uma atmosfera tenebrosa rondado a personagem, desde as cenas iniciais, abstratas de um sonho, com som e imagens de fogo e uma cantiga que remete a algum culto africano (na verdade, é um bullerengue colombiano, gênero musical cantado apenas por mulheres). Grace está isolada em sua casa, e logo que acorda com o toque do celular, o filme já aborda questões específicas da quarentena: em sua primeira conversa, Grace acha estar diante de mais uma (das tantas) fake news tipicamente pandêmicas. Do outro lado da linha, alguém lhe apresenta a aparentemente estapafúrdia história do xamã.

“Você acredita em tudo!”, Grace exclama impaciente a essa sua primeira interlocutora, chamada Anastácia – talvez uma escolha de nome aleatória, mas provavelmente uma alusão à personagem histórica de mesmo nome: a mulher negra escravizada no Brasil do século 18, que se tornou muito conhecida tanto pelo intenso sofrimento por que passou quanto pela sua capacidade de operar milagres.

E a Anastácia do filme opera um: é a mensageira daquilo que, hoje, uma parte gigantesca da população brasileira adoraria ouvir: nada disso é real. Quando quem “sonha o Brasil” acordar, tudo estará acabado – e seja qual for a realidade, há de ser melhor do que isto daqui.

Grace olha pela janela e vê o que parece ser um mendigo em surto, que passa enquanto cães não param de latir. A cidade é decadente – os créditos informam que o curta foi filmado na República São Paulo, e apesar de certamente se tratar da região da praça da República, no centro paulistano, a falta de vírgula sugere uma brincadeira com São Paulo ser em si quase que um país isolado. Tudo parece em ruínas, mas pela barulheira tem-se a impressão de que, quando Grace está na janela, outras pessoas já estavam cientes da visão do xamã – inclusive o mendigo –, e o país vive um transe coletivo.

Essa atmosfera de pesadelo tem algo de distópico e absurdista, mas é interrompida após o fim da segunda conversa de Grace pelo telefone, quando ela olha para a câmera, e, ali descobrimos que aquilo tudo era apenas uma filmagem. O curta entra em seu segundo “ato”, agora com Grace trocando algumas palavras sobre a cena com sua cinegrafista (a quem não vemos), que logo vai beber água na cozinha (com a câmera ligada).

Na cozinha, a cinegrafista apoia a câmera em uma mesa e vai se servir de água – o foco da lente fica por alguns segundos sobre uma fotografia decorativa, que mostra os expressivos olhos de uma mulher, que poderiam ser de Grace, mas que não conseguimos identificar ao certo. Há algo de tão perturbador nesse olhar que, mesmo sem saber o motivo, o espectador se sente confrontado por aquela mirada, talvez até envergonhado. É um olhar a priori "neutro", mas que, naquele contexto, surge terrivelmente acusatório. Mas do que nos acusa? Temos alguma culpa de o Brasil ser esse pesadelo que ele é? Ou os olhos nos repreendem por apenas sermos inconvenientes testemunhas de que o tal “o Brasil é um sonho” era somente... um sonho, um devaneio encenado em um curta-metragem feito na quarentena?

O filme talvez devesse terminar ali, mas ainda nos reserva um terceiro “ato” que ainda é mais assombroso: de repente, o mendigo da rua aparece na casa de Grace e vocifera: “O seu Brasil acabou, e o meu nunca existiu!”. A cinegrafista volta rapidamente para a sala e, em vez de focar no mendigo, estranhamente registra a reação de Grace, que está atônita: afinal, a mendiga é ela mesma. Em breve, seu semblante demonstrará um sentimento próximo ao de uma grande culpa – ainda mais intensa que a nossa, quando diante do olhar inquisitivo da mulher na foto da cozinha.

É um terceiro ato poderosíssimo em termos emocionais, mas ainda antes de o filme terminar, a encenação deixa sobre o espectador uma sensação residual de alguma coisa ali não está muito certa – um after taste que indica que, essa terceira parte é, na verdade, dispensável. Porque começa a ficar claro que o filme pretende nos confrontar com o quanto somos egoístas: enquanto reclamamos do nosso Brasil, no aconchego dos nossos lares, há gente que nem “Brasil” possui para reclamar como seu. São os desvalidos, esquecidos, abandonados pela sociedade – uma outra face de nós mesmos enquanto povo.

Mas existe algo de decepcionantemente sensacionalista nesse desfecho do filme. Porque a miséria, a mendicância e a subcidadania são desde sempre parte fundamental da nossa insatisfação como o Brasil, com o nosso imaginário de “Brasil enquanto pesadelo”. Aliás, é o centro dele: a desigualdade, a fome, a indigência são marcas centrais do que tornam o nosso país uma nação de horror – a cena extrema de um mendigo entrando na nossa casa e despejando isso na nossa cara é uma reiteração excessiva e desnecessária dessa ideia.

Pelos termos do filme, nosso ódio pelo Brasil se daria por questões fundamentalmente egoístas, que nos tangem mais especialmente em nosso mundinho e nossa realidade burguesa. Mas mesmo que fôssemos completamente insensíveis ao horror da miséria do país e vivêssemos 100% encastelados na nossa realidade burguesa (como parte da nossa elite certamente faz), o próprio filme já havia tratado algumas cenas antes de nos colocar em contato com o mundo lá fora: ao olhar pela janela, Grace vê o mendigo e os cães, além da rua enquanto um lugar tenebroso, assustador – o que por si já reafirmava essa ideia de país que era melhor nunca nem ter existido. De modo que o “susto” final, embora funcione em termos de suspense e impacto emocional, é no fundo uma estratégia escandalosa de abalamento do espectador. Não é que seja uma opção desonesta, mas certamente é um procedimento desmedido – não tanto em termos fílmicos, porque é um clímax potente, típico de cinema de gênero, mas em termos de moral da história, de fato é um exagero dispensável.

Há alguns outros equívocos menores que talvez tenham sido propositais para a criação de um universo de dúvida e pavor, além de um jogo complexo de encenação, mas que poderiam ter sido evitados ou  contornados com soluções mais interessantes: por exemplo, há um corte no primeiro trecho, o que contradiz a ideia de que, a todo tempo, a conversa de Grace pelo telefone era uma mesma tomada de um filme (a cena da janela não é parte do primeiro plano-sequência, sugerindo que houve ali um trabalho de edição). E não há uma explicação razoável para a moça que segura a câmera manter o aparelho ligado enquanto ela vai à cozinha – a não ser a mais óbvia: uma maneira de ampliar a tensão do espectador, enquanto aguarda o que está por acontecer. Já no trecho final, quando a cinegrafista simplesmente some (e, antes, sua câmera se volta exclusivamente para Grace, quando o esperado seria filmar o mendigo invasor), já é mais aceitável, porque ali tudo faz parte da mesma atmosfera de suspense, de terror, de confusão. Talvez haja também alguma reflexão sobre o fazer cinematográfico, o limite entre a representação, a cena e a realidade, mas é uma complexificação que nem sempre se justifica - o filme tem um tema forte demais (e minutagem de menos) para de fato abarcar essa proposta reflexiva com alguma proficiência.

Mas há pequenos detalhes que são muito sagazes e que dão um respiro a um filme tão intenso: durante a fala com a mãe, Grace dá um tom entre o realista e o cômico ao ensiná-la qual controle remoto precisa usar e que ela tem que pressionar a tecla “soúrce” – para além da comicidade em si, é uma maneira inteligente de revelar o lado classe média das personagens. Parece uma tolice, mas esse tipo de inserção espirituosa tira o ar de solenidade que muitos filmes infelizmente não conseguem evitar.

Não assisti ainda a “Vaga Carne”, média que marcou a estreia de Passô como diretora, mas aqui ela demonstra grande habilida. Já como atriz, qualquer outro comentário seria mera redundância. Viola Davis que me desculpe, mas, quando muito, ela é que é a Grace Passô americana.

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Crítica: "This Is Not Dancin Days"

(dir. Julia Katharine, 2020)


Há filmes em que a câmera se esforça, busca, procura, espera... Vai atrás o tempo todo de algum tipo de frescor, de uma fagulha que torne o material original digno de ficar registrado para sempre... mas esse “algo mais” simplesmente não aparece. Mas muitas vezes, basta a ideia certa, o ator adequado e acreditar que ambos são uma mistura interessante o suficiente para seduzir o acaso, que ele acaba intervindo – e o que era para ser uma cena banal se torna um pequeno milagre.

O curta “This Is Not Dancin Days”, de Julia Katharine, tem pelo menos uma cena que é um desses pequenos milagres – e dado o esquema de produção caseiro e o fato de o filme ter sido feito durante a pandemia, em tempo recorde, o curta em si também acaba sendo um. Aliás, o fato de não ter essa pretensão de captar alguma coisa muito extraordinária já ajuda o filme: existia ali um encontro de sensibilidades e uma desobrigação de perfeição (embora jamais um desleixo) que cria uma atmosfera muito propícia para que o acaso opere livremente. E ele o faz.

O filme é sobre uma atriz em isolamento social, que fala a uma diretora sobre sua ansiedade a poucas horas de sua primeira live. Interpretada pela sempre excelente Gilda Nomacce, a personagem é, a rigor, a própria Gilda, mas na verdade é um mix entre ela mesma, Julia Katharine e alguma atriz qualquer em situação semelhante. A tal cena miraculosa se dá quando Gilda fala, quando reflete sobre seu método de composição artística, sobre sua tendência a elaborar demais as coisas, com minúcia em excesso, e nada surgir dali – e, de repente, sua máscara de proteção facial cai sobre um cálice de vinho. Gilda dá uma leve ajeitada, raciocina por alguns segundos e, meio de bate-pronto, deixa sair: “Não parece uma freira?”.

É justamente desse tipo de falta de minúcia na criação artística, de uma espontaneidade que é capaz de fazer surgir uma freira onde menos se espera, é que às vezes um artista precisa para que sua arte, enfim, aconteça. Muitas vezes, ele já tem o material todo dentro de si – em sua mente, no seu coração, ou seja lá onde estiver: falta apenas se entregar ao risco (e ter os meios materiais, evidentemente) e colocar aquilo tudo para fora pela via da arte. É um “aquilo tudo” que muitas vezes angustia um criador porque está aparentemente imaturo, existindo apenas no plano da intenção ou de um sentimento. É difícil até de definir (e a fala algo desconexa de Gilda na cena ilustra isso muito bem), mas que finalmente “acontece” quando o artista, enfim, entende que chegou a hora de partir para a autoexpressão.

Não é que não exista no cinema de Julia Katharine uma programação ou um roteiro, muito pelo contrário. Seu trabalho com o cineasta Gustavo Vinagre, ao que parece, a instigou a seguir pela mesma via criativa que ele tem trilhado em seus três longas: em 2018, ela protagonizou um filme dele com um princípio parecido, “Lembro Mais dos Corvos”. Em cena, Julia era ela mesma (ou uma variação de si própria – assim como Marcelo Diorio em “A Rosa Azul de Novalis” e Wilma Azevedo em “Vil, Má”): conversava com a câmera e falava de sua vida – a experiência como artista, como mulher trans, como ser humano em geral, sempre provocada por questões do próprio diretor (que não aparece em cena, mas cuja voz ouvimos), ao que ela responde de forma aparentemente improvisada.

A escola é boa: o êxito do cinema de Vinagre está bem nesse jogo com o espectador, na dúvida entre o que pode ser fala de um roteiro previamente escrito, o que é um eventual improviso do protagonista, o que é uma performance de alguém sobre si, o que é real mas parece script, o que é script e parece real, e por aí vai. E, desta vez no papel de diretora, Katharine usa o mesmo princípio, e o curta transita sempre nessa zona nebulosa típica da performance, entre a realidade e a encenação – embora muitas vezes as falas tenham sido obviamente escritas, e alguns “acasos” provavelmente tenham sido encenados (a própria cena da freira também pode ter sido roteirizada, mas parece tão natural que, se foi ou deixou de ser, isso já não tem mais qualquer importância).

Talvez em um momento que não o de uma pandemia, em que as incertezas naturais das pessoas são levadas à estratosfera, “This Is Not Dancin Days” não tivesse a mesma força: o curta ganha uma interlocução com o público extremamente forte por ter sido rodado e lançado no meio de uma crise como a que vivemos (aliás, em que fase dela estamos? Gilda já começa o filme mostrando a nossa confusão: “É a primeira vez q vou me apresentar depois da pandemia”, ela diz, corrigindo-se em seguida: “Entre a pandemia... Na pandemia...”).

É claro que o filme só existe por causa da pandemia – ele está em seu cerne dramatúrgico e em seu espírito. A ansiedade de uma atriz nas horas que antecedem sua primeira live é um excelente achado para um ponto de partida de um filme pandêmico: eis uma intérprete tensa com sua estreia em um nova modalidade de produto audiovisual, em que vários anônimos de repente se tornaram especialistas, enquanto ela, atriz profissional, ainda é uma virgem.

A live não seria, no fim das contas, também mais uma modalidade de “performance”, como as do teatro, da TV ou do cinema? No caso, a diferença é que Gilda ainda não estreou nesse formato, e se uma estreia é sempre fator de ansiedade, ela se duplica por acontecer em um campo novo, uma “moda” que parece ter vindo para ficar, em que amadores já estão mais do que estabelecidos, mas que para ela é um terreno totalmente inexplorado. E para alguém que trabalha justamente com performance, caso não se saia bem nessa sua primeira... o que será dela a partir dali?

Mas a verdade é que o nervosismo da atriz diante da primeira live é um ponto de largada, apenas, para o filme falar em angústias mais amplas. A Gilda do filme tem uma série de questões pessoais – de natureza profissional (“nunca fiz um monólogo no teatro”), mas também existenciais – sobre as quais ela fala de forma quase sempre meio genérica, com frases não 100% alinhavadas ou concluídas, o que mostra sua dificuldade (dela e da diretora, provavelmente) em articular seus pensamentos e sentimentos.

Não há ser vivo que não se identifique com Gilda quando ela chora e diz: “Vai passar, vai passar, mas... Não sei se vai passar”. A identificação é obviamente maior porque enfrentamos uma pandemia, quando tudo no mundo está imprevisível, mas também se dá em um nível muito mais profundo e abrangente. É óbvio que não podemos menosprezar ali o específico da situação de uma atriz falando de questões bem pontuais da falta de perspectivas na área artística causadas pela necessidade de isolamento social - e agravadas pelo desastroso desempenho do atual governo na área da cultura. Mas é de angústia humana, em um nível mais universal, que ela está falando - e angústia é algo sobre o que nós, pessoas, em geral não costumamos ter completo domínio.

O choro ajuda, no entanto, a suavizar a vida. As coisas também ficam menos insuportáveis se tomamos algumas atitudes banais, como se entregar a alguns devaneios mais descompromissados, observando o que nos cerca de forma menos pragmática e mais poética (ver uma freira em um copo; enxergar os buracos da casinha da planta como se fossem olhos/bocas). Ou mesmo buscar sentido em situações que são fruto da aleatoriedade (a escolha do caderno com a capa da Barbie; a numerologia de uma determinada data). 

Mas o que certamente torna tudo mais fácil são os encontros, e a impossibilidade deles durante a pandemia é uma limitação das mais terríveis. Mas quando Gilda encontra Katharine e ambas se consolam, as duas parecem ganhar força – e essa troca de energia entre ambas é quase palpável ao espectador; o filme, ali, se eleva. Elas falam sobre Julia Matos, a ex-presidiária da novela “Dancin’ Days” (1978-79) vivida por Sonia Braga, que luta para se reerguer após passar 11 anos na prisão – e que, mais adiante na trama, sofre uma reviravolta: fica rica e linda, e causa inveja a todos ao brilhar com seu corpo livre na pista de dança, com suas meias de lurex.

Mas não: a vida de Gilda não é “Dancin’ Days”. Mas a de qual entre nós de fato é? Nem a da própria Sonia Braga: todos somos, no fundo, Julias Matos da vida real, tentando achar o caminho da pista de dança, atrás de uma meia de lurex que só eventualmente conseguimos encontrar. A vida não consiste em brilhar na discoteca: é a busca por isso, simplesmente.

Mas o encontro também é terapêutico quando Gilda e Katharine falam de coisas mais banais – sobre perucas, um sapato que Gilda afanou após um de seus trabalhos (e que Katharine jura que não incluiria no filme). Aliás, o humor se mostra fundamental, e a montagem de João Marcos de Almeida ajuda bastante: na cena sobre o caderno da Barbie, há uma hilária menção a um trabalho de Gilda com uma tal Regina (na vida real, Nomacce já contracenou com Regina Duarte em um filme, quando a ex-atriz global ainda não era a figura massivamente rejeitada pela classe artística, devido ao seu alinhamento ao governo Bolsonaro e sua patética passagem pela secretaria da cultura durante a pandemia).

Uma das forças do estilo de Gilda Nomacce é jamais tentar esconder por completo as inseguranças dela própria na composição de suas personagens, e nunca antes em sua carreira isso foi tão positivo como aqui. Suas fragilidades (encenadas ou não, porque ela também é uma atriz com sólidos recursos técnicos) a tornam desta vez hipnótica como nunca: é um filme de pouco mais de 9 minutos, mas é seguramente um de seus melhores momentos em sua (admirável) carreira.

E Julia Katharine também dá um passo adiante enquanto cineasta – seu curta anterior, “Tea for Two”, transbordava ternura e sensibilidade sobre um tema áspero, mas em termos formais era um bocado convencional. Aqui, embora partindo de uma matriz criativa ainda muito escorada na influência de Gustavo Vinagre, ela encontra uma forma de se (auto)expressar mais arejada, sem as amarras de um roteiro mais tradicional. Se em um filme tão pequeno ela conseguiu abarcar tantos mundos, tantas ideias e tantas emoções, o acaso não há de lhe negar futuramente novos pequenos milagres. E, provavelmente, até grandes.