segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Tiradentes 2019 - Crítica: "Vermelha"

(idem, dir. Getúlio Ribeiro)

O personagem Gaúcho, de "Vermelha"

O grande vencedor da Mostra de Tiradentes 2019, “Vermelha” é um corpo estranho na filmografia brasileira (e mundial) recente. É um filme que parece existir com a intenção primordial de quebrar a expectativa do público: quando se imagina que a história vai tomar um certo rumo, o diretor (o talentoso Getúlio Ribeiro, estreante em longas) se encarrega de driblar o espectador e desviar a obra para um caminho completamente imprevisto. E faz isso diversas vezes, conseguindo um efeito a priori de frustração, mas que, com o tempo, se torna quase hipnótico: é fascinante aguardar pelas novas surpresas e verificar até que ponto Ribeiro é capaz de conduzir sua insólita narrativa.

Existe algo melhor no cinema do que justamente essa capacidade de surpreender? Muito de “Vermelha” parece ser completa e absolutamente aleatório, improvisado, mas seja isso uma impressão ou uma verdade, o fato é que Ribeiro é um formidável artista instintivo; suas ideias da etapa do roteiro e/ou suas decisões na mesa de montagem resultam em um material que ao mesmo tempo desafia o espectador (deixando-o por vezes totalmente perdido) como também o satisfaz, mesmo diante de escolhas estéticas de sentido indecifrável. Em seus gaps, buracos, pontos de interrogação (e mesmo falhas), o filme compõe um todo coerente, aceitável. E mais ainda: um todo deliciosamente afetivo e engraçado.

Os protagonista é Gaúcho, um pai de família que mora em uma casa simples na periferia de Goiânia, junto da mulher e de sua filha (além de, talvez, um filho, mas isso nunca fica claro). Ele tem um amigo que mora no mesmo bairro, Beto, que faz visitas de vez em quando. E há a cachorra Vermelha, que batiza o filme e é uma espectadora – embora também participante – do dia a dia daquele lar.

O longa é sobre a rotina de gente simples, a quem nada de muito extraordinário acontece. Há, no entanto, uma fabulação (em geral em tom paródico, humorístico) de certas situações que afasta “Vermelha” do cinema de “cenas do cotidiano” clássico. Um exemplo: um vizinho que emprestou dinheiro a Gaúcho aparece algumas vezes para cobrar o que lhe é devido. Quando ele surge acompanhado de capangas, para reaver na marra o empréstimo, a sequência é encenada em estilo em falso pastiche de um faroeste, incluindo ainda alusões coreográficas aos musicais e toques de cinema de ação e de arte marcial. É uma maneira de apresentar de forma cômica, até lúdica, uma cena que, na vida real, talvez tivesse sido violenta e desagradável. Mas a opção pelo humor não é apenas uma forma de suavizar aquela situação: é também um modo de ressaltar o quanto aqueles personagens, em um contexto em que se tomam por imponentes, respeitáveis, são no fundo ridículos – como somos ridículos todos nós, mesmo nos instantes em que nos julgamos solenes e dignos de reverência. “Vermelha” é um filme que ri do ser humano, mas com um sarcasmo sempre tão doce, terno, que o torna uma obra especialmente apreciável.

Gaúcho e Beto são daquelas pessoas que têm um gestual e uma forma de se expressar naturalmente performáticos; são atores inatos, além de duas personalidades bastante carismáticas. Quando são estimulados por Ribeiro a cenas de teatrinho (não documentais), tiram de letra. E têm algumas semelhanças físicas que geram entre ambos um curioso espelhamento – e que Ribeiro, na cena provavelmente fantasiosa (ou talvez alusiva e romantizada de um evento passado) da briga física dois dois, explora especialmente bem (eles se encaram como se estivessem diante de um espelho). São dois homens teimosos, de gênio forte, mas de bom coração; não à toa, são grandes amigos.

Beto e Gaúcho, na cena da briga

Dos demais personagens, sabemos praticamente nada. A mãe talvez seja a de construção mais incompleta, mas da filha temos ainda menos dados. Há talvez um outro filho, mas ele quase não aparece, assim como um namorado da filha, que não tem a menor relevância para a trama (se é que existe uma). Por outro lado, o sujeito que cobra dinheiro tem uma cena impagável, que mistura onirismo, alguma carga espiritual e um humor saborosamente interiorano: ele surge do Além para cobrar o dinheiro novamente – desta vez, de forma amistosa (até fumam juntos um cigarro).

Há todo um admirável trabalho de montagem (que Ribeiro assina com Luciano Evangelista) que opera no sentido de concatenar cenas isoladas de modo a parecerem sempre um bocado desconexas; há um rompimento constante – e intencional – com a narrativa canônica, esmiuçada nos manuais de roteiro. As cenas inseridas possuem diferentes estilos de filmagem, duração e natureza semiótica, fazendo sentido apenas como peças de um mosaico. Pode-se não entender a função de determinada cena ou sequer o que está sendo filmado; a simples presença dessas imagens inusitadas causam um efeito de unheimlich que se presta muitas vezes antes a resultados sensoriais que de importância narrativa. São sempre um pequeno mistério a ser desvendado pelo público – não tão enigmáticos a ponto de o espectador se enfurecer quando alguns trechos jamais são “explicados” pela lógica convencional, mas a ponto de tornar o filme uma experiência de constante e prazerosa decifração de uma charada. “Vermelha” não entrega quase nada de mãos beijadas; é feito para desestabilizar o espectador.

É difícil detectar no filme um princípio mais geral de montagem. É um longa episódico, mas mesmo entre cada trecho, não há exatamente um padrão de estilo: tem de tudo um pouco, e Ribeiro utiliza quando bem entende cada um deles. Há, por exemplo, no começo do filme, um longo trecho de montagem alternada (ou talvez paralela, já que há uma possibilidade de correlação simbólica entre cada trecho): dois homens de idade (Gaúcho e Beto) conversam no telhado de uma casa, arrancando telhas velhas. Ao mesmo tempo, dois homens jovens estão em um carro, a caminho de uma região rural de onde arrancarão do solo a raiz de uma grande árvore morta. As cenas envolvendo cada dupla se alternam por um bom tempo, até que os jovens levam, enfim, a raiz para a casa das telhas.

A partir daí, trechos rapidíssimos e aparentemente sem relação com o que parece ser uma trama surgem do nada, de quando em quando. Insolentemente, também desaparecem sem dar o menor indício do motivo de sua existência naquele ponto específico do filme. Alguns parecem ser flash forwards, mas ao fim do filme se verá que muitos deles jamais são retomados adiante. Outros sugerem imagens de um plano paralelo, por vezes espiritual, por outros metafórico, de vez em quando apenas imaginado. Tudo é tão solto e displicentemente desinteressado em entregar um sentido fechado que cabe ao espectador classificá-los em sua cabeça da maneira que achar mais apropriado. No geral, porém, quase todos transmitem algum tipo de informação sobre a vida naquela casa ou sobre os personagens.

Mas “Vermelho” não é um filme apenas definido na montagem; a encenação e a captação de imagens é algo especialmente feliz. Existe um grafismo em certas imagens que surgem ali de uma maneira inesperada, natural; o diretor pode até ter feito um story board prévio, mas o que acontece dentro do quadro é sempre algo notoriamente ocorrido ao sabor do momento. E a presença de uma cachorra em grande parte das cenas reforça essa ideia -- por mais adestrada que Vermelha possa ser, muito do que de gráfico ela contribui em diversas cenas do filme é inegavelmente casual, obra do acaso. Quando ela assiste pela janela a uma alegre dança dos familiares na sala ou quando repete, no fundo do campo, o gesto da filha em primeiro plano de balançar os cabelos, o filme atinge um inigualável tipo de poesia visual não planejada, natural, que só uma câmera que não pretende captar nada de muito excepcional geralmente consegue registrar.

O longa transita entre o paródico, o alusivo, o simbólico e o naturalista. Tem também cenas oníricas, de absurdo e mesmo metafísicas. Tudo abarcado por um nonsense peculiarmente cômico, que ganha um lirismo e uma beleza especial graça a esses toques de acaso. Pouco importa a simbologia da raiz plantada no quintal da casa: a mensagem do filme parece ser a de que nem tudo é explicável ou faz sentido. “Mistério sempre há de pintar por aí”, como dizia Gilberto Gil, e “Vermelha” nos convida a todo tempo a não apenas prestar atenção a eles mas também – e sobretudo – a saber apreciá-los naquilo que eles são. Mistérios, simplesmente.


sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Tiradentes 2019 - Crítica: "A Rainha Nzinga Chegou"

(idem, dir. Junia Torres e Isabel Casimira Gasparino)

Cena de "A Rainha Nzinga Chegou"


É um bocado estranho que um documentário tão convencional quanto “A Rainha Nzinga Chegou” tenha sido escolhido para um festival como Tiradentes. Ou nem tanto: apenas reforça o quanto esta edição tem dado preferência à temática política em detrimento da inovação estética.

Dirigido por Junia Torres e Isabel Casimira Gasparino, o filme acompanha um grupo mineiro de descendentes de escravos que luta para preservar as tradições e cultura trazidas da África por ancestrais. A líder da comunidade, denominada “rainha”, é a guardiã de todo o conhecimento e a memória do que foi transmitido por seus antepassados. Já idosa, começa a se preocupar em passar a coroa a outra pessoa capaz de tocar adiante o projeto de preservação daquela cultura.

Com sua morte, quem assume é sua filha mais velha, Isabel (codiretora do filme). Ela vai a Angola buscar um maior contato com suas raízes e se certificar de que é mesmo capaz de ser a nova rainha.

A história é muito bonita, e enquanto material etnográfico/documento de preservação cultural, o filme é de importância inestimável. Cinematograficamente, porém, não tem grande pujança – muito embora tenha pelo menos uma sequência brilhante, sobretudo se pensarmos em sua extraordinária simplicidade (apenas uma questão de montagem precisa e movimento de câmera perspicaz): a que revela a morte da rainha.

O filme tem outros momentos fortes, como quando a nova rainha descobre ao lado do seu hotel em Angola um canteiro com um tipo de planta cujas sementes são exatamente as mesmas que servem de material para a confecção de sua coroa. Ou quando ela pisa nas marcas de pegadas de uma antepassada e improvisa um canto alegre e emocionado. Ou ainda quando os parentes distantes da África lhe confirmam que várias das tradições que sua mãe lhe repassou são, de fato, muito semelhantes às que eles possuem em Angola.

Mas o filme já valeria nem que para observar o rosto de Isabel em dois momentos: primeiro quando sua mãe, ainda viva, cogita que será ela a nova rainha (e ali vemos em seu semblante o quanto ela estava insegura sobre sua capacidade de ser a nova líder) e, depois, já na África, após ter aceito o desafio e se encontrar com os antepassados (seu rosto muda por completo: passa a esbanjar confiança e até a exibir uma aura mística própria de uma liderança ciente de sua sina espiritual).


quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Tiradentes 2019 - Crítica: "Tremor Iê"

(idem, dir. Elena Meirelles e Lívia de Paiva)

Cena de "Tremor Iê"
“Tremor Iê”, trabalho colaborativo de um grupo de mulheres cearenses, com direção assinada por Elena Meirelles e Lívia de Paiva, é um filme que parece ter sido feito sob encomenda para ilustrar o Brasil da era Bolsonaro.

Mostra uma Fortaleza distópica, em que um governo extremamente autoritário, higienista e controlador domina os cidadãos. As ruas vivem vazias, escuras, supervigiadas por câmeras e estranhos agentes de segurança pública chamados de Soldados de Bem. De tempos em tempos, vozes metálicas dão recados ao povo por meio de alto-falantes: “Você pode tudo, cidadão de bem!”.

A história tem início em 2013, quando um grupo de mulheres negras (algumas lésbicas) foi abordada por policiais durante uma das tensas manifestações políticas daquele ano. Todas são tratadas com agressividade, mas uma delas, Janaína, acaba sendo levada a um presídio sufocante e violento.
Anos depois, ela consegue fugir e planeja com as amigas um plano para resgatar outras colegas presas em situações injustas e truculentas. Para isso, arquitetam um plano: roubar os restos mortais do ex-presidente militar Humberto Castelo Branco e usá-los como moeda de troca das prisioneiras.

O filme é profundamente desigual e desbragadamente amador. Mas traz uma potência latente tão forte, uma energia não completamente dominada tão pulsante que mesmo em cenas longas, sem ação ou mal encenadas, há sempre alguma vibração que impede por completo que o tédio domine a experiência. É como se o longa, em algum momento, fosse explodir; a tela grande parece pequena demais para a fúria daquelas mulheres.

Há algo de naturalista e, ao mesmo tempo, performático nas atuações das protagonistas Deyse Mara e Lila M. Salu. Esta última é o que muitos chamam de “força da natureza”: quando ela fala, percebe-se uma musicalidade especial em sua voz, firme e máscula, que por vezes faz parecer que está entoando versos de hip hop. Aliás, o filme tem alguns trechos musicais (vários versos são cantados e compostos pela própria Salu) que o tornam ainda mais pungente, sobretudo o rap que marca logo a abertura do filme. “Politize-se!”, “Genocídio é projeto” e “Levo a cria nas minhas costas e uma faca em minhas mãos”, dizem alguns dos versos.

“Tremor Iê” tem todos os defeitos narrativos imagináveis, mas poucos deles vêm à memória quando nos lembramos do filme após a sessão; não é isso que fica. O que o espectador leva consigo é o canto desesperado, impaciente e furioso das mulheres negras, lésbicas e pobres, cansadas de ser maltratadas e de não ter voz na sociedade brasileira (de hoje ou de qualquer época). Ancestralmente machista e elitista, o Brasil chega ao auge dessas particularidades com o governo Bolsonaro. Mas também, como nunca, parece ter encontrado a mais poderosa resistência possível: é a partir de mulheres como as de “Tremor Iê” que mudanças fundamentais para o país hão de surgir.

Tiradentes 2019 - Crítica: "Seus Ossos e Seus Olhos"

(idem, dir. Caetano Gotardo)

Cena de "Seus Ossos e Seus Olhos"

Há tantas boas ideias, tantos diálogos (e monólogos) interessantes e tantos detalhes significantes em “Seus Ossos e Seus Olhos” que chega a ser assombroso o quanto um mesmo filme pode trazer tanta inteligência. O diretor, Caetano Gotardo, fez uma excelente síntese sobre o próprio longa em sua apresentação, no palco da estreia do filme, na Mostra Aurora: “É [um filme] sobre conversa, encontros, a dificuldade e a beleza de estar com outras pessoas no mundo.”

O longa é um apanhado de situações mais ou menos aleatórias na vida de João (interpretado pelo próprio Gotardo), um rapaz de classe média em termos financeiros, mas de uma certa elite intelectual, que mora com o namorado, com o qual tem um relacionamento aberto.

O filme se distribui em cenas em que João se encontra com diversas pessoas (uma amiga, o namorado, um amante, desconhecidos) e conversa com elas. Nos assuntos, há de tudo: banalidades variadas, confissões sexuais, reflexões intimas sobre amor e a paixão, conversas de cunho social. Nenhuma delas leva a lugar nenhum ou modifica radicalmente nenhum dos envolvidos no diálogo, mas sempre se leva alguma coisa dali.

“Alimenta todo o resto do processo”, diz a certa altura o namorado de João, que vive um ator, sobre seus aparentemente vãos ensaios rotineiros para uma peça. Mas ele poderia estar se referindo ao tema central do filme: tudo o que experimentamos em um encontro, em maior ou menor escala, servirá de alimento para um processo maior, que podemos chamar de formação individual – ou simplesmente de vida.

O filme mostra o quanto em nossas conversas nós repetimos padrões, posturas, narrações, estilos narrativos e mesmo conteúdos absorvidos em encontros que temos ao longo da vida. Gotardo apresenta isso com perspicácia na repetição de várias situações e em papos recorrentes filme afora, mas que surgem sempre com algumas alterações; a vida é uma eterna mesma coisa, porém sempre recriada.

O longa é fascinante ao mostrar isso, mas também quando Gotardo faz considerações mais específicas sobre os encontros: na melhor cena do filme, João perde vários minutos em busca de uma posição confortável para conversar com uma amiga que foi buscar uma cerveja. Há também excelentes instantes em que os personagens ficam em silêncio, buscando controlar o mal-estar da situação com piscadelas, viradas de pescoço, coçadas nas pernas etc. Gotardo é um excelente observador.

O filme, no entanto, tem uma propensão à reiteração de ideias que o enfraquecem lastimavelmente. Quando já se compreendeu muito bem do que o longa fala, o diretor repete procedimentos cuja recorrência nada mais têm a acrescentar (mesmo sendo um filme justamente sobre recorrências); aborrecem, apenas. E há uma camada extra não muito bem explorada sobre o fazer cinematográfico, quando o próprio Gotardo aparece editando o som de cenas do seu filme, mostrando o quanto algumas situações poderiam desembocar em conclusões distintas se não fosse por algum mísero detalhe (a falta de cerveja na geladeira, por exemplo). Essa ideia aparece também quando os diálogos são quase 100% repetidos em situações distintas (uma conversa na sala de estar é deslocada para um museu), mas ela nunca passa de um nível abstrato demais e acaba apenas sobrecarregando desnecessariamente o filme.

Gotardo não é mau ator e traz uma certa naturalidade às cenas em que aparece, mas o contraste da atuação dele com a de outros colegas de elenco por vezes opera contra seu personagem, que se torna algo maçante. “Seus Ossos e Seus Olhos” é um filme claramente pessoal, mas (talvez até por isso) provavelmente funcionasse melhor se o diretor tivesse cedido o personagem a algum outro ator – ou editasse com mais precisão as cenas em que João aparece. Estranhamente, porém, a presença dele em cena parece fundamental para que o filme tenha a consistência que possui. Uma situação irremediável.

“Seus Olhos e Seus Ossos” teria muitíssimo a ganhar se voltasse à ilha de edição e, ali, fossem cortadas partes excessivas de certas cenas (com meia hora menos, o filme seria quase perfeito). Mas mesmo em suas limitações, o longa é uma joia e com algumas das melhores ideias colocadas em palavras do cinema nacional recente. Ajuda a desfazer a pecha de que o Brasil não é capaz de gerar bons roteiristas.