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O japonês Hirozaku Kore-eda parte de uma curiosa premissa em
“Sheep in the Box”: um casal que perdeu o filho de 7 anos em um acidente tem a
chance de “ressuscitá-lo” por meio de Inteligência Artificial. A trama se passa
em um futuro não muito distante, quando a IA regenerativa é capaz de recriar corpos
de aparência externa idêntica à de alguém falecido, com o comportamento
condicionado por informações diversas fornecidas pela família de modo que se
configure um algoritmo capaz de definir as atitudes desse novo ser da maneira
mais próxima possível de como agiria a pessoa que serviu de base, caso
estivesse viva.
Claro, o filme é um mero exercício de imaginação, mas como
envolve ética no uso de IA é de se presumir que o diretor se preocupasse em questionar
o quanto tal tecnologia já não está evoluída o suficiente a ponto de
praticamente antever como as pessoas se comportariam diante de determinadas
situações. Ou, prolongando um pouco, indagar: será que algum dia de fato a
inteligência artificial conseguirá substituir verdadeiramente alguém, inclusive
em termos afetivos?
Mas essas questões indissociáveis de qualquer abordagem
crítica sobre a IA passam ao largo do que o filme apresenta. O japonês prefere
criar uma história com foco no luto parental, ainda que o faça de modo suave,
com ares de fantasia infantil, em que mostra o quanto a ternura humana pode ser
elástica. A ponto de nos deixarmos ser tocados emocionalmente também por
máquinas.
O espectador passa a suspeitar, então, de que o que Kore-eda
pretende discutir vai um pouco além: já não estaríamos nos relacionando com a
IA em um nível de igualdade tão estranho
que começamos a desenvolver sentimentos por ela – mesmo sabendo que é algo sem
vida?
Decepcionantemente, porém, o filme também deixa passar essa
discussão. Aliás, “Sheep in the Box’ chega ao final mostrando-se uma obra assustadoramente
inofensiva: não promove quase debate algum sobre a IA. Não defende, não
condena, não apresenta tese: usa o desenvolvimento tecnológico como uma
premissa apenas para fazer um filme com o tradicional “toque de Kore-eda”,
aquela maneira afetuosa de tratar seus personagens, em uma narrativa fluida e
tocante em sua simplicidade.
Os personagens têm lá sua razão – discutível o quanto ela
possa ser – para ter envolvimento emocional com uma máquina, mas estender ao
espectador um convite a ter o mesmo tipo de empatia e até certo afeto por robôs
é um conceito por demais doentio para ser aceito facilmente. E mesmo que o
filme traga leveza e um tom cativante de quase conto de fadas na narrativa, é
quase impossível conceber que uma obra como “Sheep in the Box” problematize apenas
em um nível tão primário o avanço da tecnologia substituidora de humanos. É um
filme tolo e de um sentimentalismo lastimável.
“Gentle Monster”, da austríaca Marie Kreutzer, fala da crise
conjugal entre uma musicista e um cineasta, pais de um garotinho ainda
impúbere, que levam uma vida sem luxo, mas em geral tranquila, no sul da
Alemanha. A rotina da família muda por completo depois que a polícia aparece e
leva o marido para investigação: é suspeito de disseminar e talvez até produzir
pornografia pedófila para a internet.
Lucy, a esposa, nem imaginava que seu marido pudesse estar
metido em algo semelhante, e embora inicialmente ela se recuse a acreditar,
logo passa a ter suspeitas de que o próprio filho possa ter sido filmado –
talvez até sofrido abusos pelo pai.
Quem comanda as investigações é uma policial que também tem
problemas familiares – seu pai senil tem a propensão de abusar de suas
cuidadoras, e se a agente é assertiva ao lidar com casos de violência sexual de
outras pessoas, quando isso ocorre debaixo do seu teto, ela se comporta de modo
bastante menos enérgico. Mas a subtrama da policial não tem vigor, e o
contraponto que Kreutzer planejava estabelecer entre ela e Lucy nunca é convincente.
Léa Seydoux é uma atriz de alta competência técnica, mas
aqui ela tem uma performance atravancada, sem muita convicção. Ela traz o drama
da personagem, sim, mas não parece saber muito bem como canalizar isso para sua
performance: alguma coisa impede que sua Lucy alce voo. Talvez seja o roteiro
sem grande brilho, ou mesmo a direção de Kreutzer, igualmente opaca. O filme
não tem o poder de persuasão e envolvimento que a trama teria capacidade de alcançar
em mãos mais eficientes.
Apresentado fora de competição, o documentário “John Lennon:
The Last Interview”, de Steven Soderbergh, traz a íntegra da última conversa com
a imprensa que o ex-Beatle teve, poucas horas antes de ser assassinado na porta
de seu prédio, em 1980. Era uma entrevista junto com Yoko Ono para uma rádio de
São Francisco, que durou pouco menos de uma hora e meia. Os repórteres só
teriam a conversa se não fizessem perguntas sobre a experiência de Lennon na
banda com os três amigos de Liverpool, devendo focar no álbum que ele havia
acabado de lançar com Yoko Ono, “Double Fantasy”. Claro que os radialistas aceitaram.
O conteúdo da entrevista, em áudio, é apresentado enquanto
diversas fotografias são mostradas, em geral com alguma relação temática com o
que é falado. Não é exatamente o mais criativo dos procedimentos, mas
Soderbergh parece ter tido acesso a bastante material inédito, então grande
parte das fotos de Lennon em ambiente familiar são um excelente acompanhamento
ao que ele e Yoko dizem no áudio. De vez em quando, porém, Soderbergh se mete a
ilustrar as falas com imagens mais genéricas, feitas por IA, e nesses instantes
o longa chega ao seu ponto mais baixo.
Depois de sua morte, Lennon se tornou um ídolo de dimensões
ainda mais mitológicas, e o desgaste da proliferação de sua imagem enquanto pacifista
e guru comportamental o fez se tornar, décadas depois de sua morte, visto por
muitos como um sujeito até bem chato. Mas o documentário mostra que Lennon, ao
menos nessa entrevista, tinha uma lucidez e uma capacidade de comunicação
invejáveis – não foi à toa que se tornou um grande ídolo, para além do seu
talento musical.
Tanto ele como Yoko falam diversas coisas em pleno 1980 que
hoje são repetidas como novidade. O que nos faz pensar: será que John e Yoko
era avançados para sua época? Ou correspondiam ao pensamento progressista corrente
de 1980, e nossos tempos é que são fruto de um gigantesco e lamentável
retrocesso? O documentário surgir em 2026 torna o material mais poderoso do que
talvez tenha sido na época em que foi gravado.

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