sábado, 16 de maio de 2026

Cannes 2026: Kore-eda, Kreutzer e Soderbergh

 

O japonês Hirozaku Kore-eda parte de uma curiosa premissa em “Sheep in the Box”: um casal que perdeu o filho de 7 anos em um acidente tem a chance de “ressuscitá-lo” por meio de Inteligência Artificial. A trama se passa em um futuro não muito distante, quando a IA regenerativa é capaz de recriar corpos de aparência externa idêntica à de alguém falecido, com o comportamento condicionado por informações diversas fornecidas pela família de modo que se configure um algoritmo capaz de definir as atitudes desse novo ser da maneira mais próxima possível de como agiria a pessoa que serviu de base, caso estivesse viva.

Claro, o filme é um mero exercício de imaginação, mas como envolve ética no uso de IA é de se presumir que o diretor se preocupasse em questionar o quanto tal tecnologia já não está evoluída o suficiente a ponto de praticamente antever como as pessoas se comportariam diante de determinadas situações. Ou, prolongando um pouco, indagar: será que algum dia de fato a inteligência artificial conseguirá substituir verdadeiramente alguém, inclusive em termos afetivos?

Mas essas questões indissociáveis de qualquer abordagem crítica sobre a IA passam ao largo do que o filme apresenta. O japonês prefere criar uma história com foco no luto parental, ainda que o faça de modo suave, com ares de fantasia infantil, em que mostra o quanto a ternura humana pode ser elástica. A ponto de nos deixarmos ser tocados emocionalmente também por máquinas.

O espectador passa a suspeitar, então, de que o que Kore-eda pretende discutir vai um pouco além: já não estaríamos nos relacionando com a IA em um  nível de igualdade tão estranho que começamos a desenvolver sentimentos por ela – mesmo sabendo que é algo sem vida?

Decepcionantemente, porém, o filme também deixa passar essa discussão. Aliás, “Sheep in the Box’ chega ao final mostrando-se uma obra assustadoramente inofensiva: não promove quase debate algum sobre a IA. Não defende, não condena, não apresenta tese: usa o desenvolvimento tecnológico como uma premissa apenas para fazer um filme com o tradicional “toque de Kore-eda”, aquela maneira afetuosa de tratar seus personagens, em uma narrativa fluida e tocante em sua simplicidade.

Os personagens têm lá sua razão – discutível o quanto ela possa ser – para ter envolvimento emocional com uma máquina, mas estender ao espectador um convite a ter o mesmo tipo de empatia e até certo afeto por robôs é um conceito por demais doentio para ser aceito facilmente. E mesmo que o filme traga leveza e um tom cativante de quase conto de fadas na narrativa, é quase impossível conceber que uma obra como “Sheep in the Box” problematize apenas em um nível tão primário o avanço da tecnologia substituidora de humanos. É um filme tolo e de um sentimentalismo lastimável.  

“Gentle Monster”, da austríaca Marie Kreutzer, fala da crise conjugal entre uma musicista e um cineasta, pais de um garotinho ainda impúbere, que levam uma vida sem luxo, mas em geral tranquila, no sul da Alemanha. A rotina da família muda por completo depois que a polícia aparece e leva o marido para investigação: é suspeito de disseminar e talvez até produzir pornografia pedófila para a internet.

Lucy, a esposa, nem imaginava que seu marido pudesse estar metido em algo semelhante, e embora inicialmente ela se recuse a acreditar, logo passa a ter suspeitas de que o próprio filho possa ter sido filmado – talvez até sofrido abusos pelo pai.

Quem comanda as investigações é uma policial que também tem problemas familiares – seu pai senil tem a propensão de abusar de suas cuidadoras, e se a agente é assertiva ao lidar com casos de violência sexual de outras pessoas, quando isso ocorre debaixo do seu teto, ela se comporta de modo bastante menos enérgico. Mas a subtrama da policial não tem vigor, e o contraponto que Kreutzer planejava estabelecer entre ela e Lucy nunca é convincente.

Léa Seydoux é uma atriz de alta competência técnica, mas aqui ela tem uma performance atravancada, sem muita convicção. Ela traz o drama da personagem, sim, mas não parece saber muito bem como canalizar isso para sua performance: alguma coisa impede que sua Lucy alce voo. Talvez seja o roteiro sem grande brilho, ou mesmo a direção de Kreutzer, igualmente opaca. O filme não tem o poder de persuasão e envolvimento que a trama teria capacidade de alcançar em mãos mais eficientes.

Apresentado fora de competição, o documentário “John Lennon: The Last Interview”, de Steven Soderbergh, traz a íntegra da última conversa com a imprensa que o ex-Beatle teve, poucas horas antes de ser assassinado na porta de seu prédio, em 1980. Era uma entrevista junto com Yoko Ono para uma rádio de São Francisco, que durou pouco menos de uma hora e meia. Os repórteres só teriam a conversa se não fizessem perguntas sobre a experiência de Lennon na banda com os três amigos de Liverpool, devendo focar no álbum que ele havia acabado de lançar com Yoko Ono, “Double Fantasy”. Claro que os radialistas aceitaram.

O conteúdo da entrevista, em áudio, é apresentado enquanto diversas fotografias são mostradas, em geral com alguma relação temática com o que é falado. Não é exatamente o mais criativo dos procedimentos, mas Soderbergh parece ter tido acesso a bastante material inédito, então grande parte das fotos de Lennon em ambiente familiar são um excelente acompanhamento ao que ele e Yoko dizem no áudio. De vez em quando, porém, Soderbergh se mete a ilustrar as falas com imagens mais genéricas, feitas por IA, e nesses instantes o longa chega ao seu ponto mais baixo.

Depois de sua morte, Lennon se tornou um ídolo de dimensões ainda mais mitológicas, e o desgaste da proliferação de sua imagem enquanto pacifista e guru comportamental o fez se tornar, décadas depois de sua morte, visto por muitos como um sujeito até bem chato. Mas o documentário mostra que Lennon, ao menos nessa entrevista, tinha uma lucidez e uma capacidade de comunicação invejáveis – não foi à toa que se tornou um grande ídolo, para além do seu talento musical.

Tanto ele como Yoko falam diversas coisas em pleno 1980 que hoje são repetidas como novidade. O que nos faz pensar: será que John e Yoko era avançados para sua época? Ou correspondiam ao pensamento progressista corrente de 1980, e nossos tempos é que são fruto de um gigantesco e lamentável retrocesso? O documentário surgir em 2026 torna o material mais poderoso do que talvez tenha sido na época em que foi gravado.


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