sábado, 27 de maio de 2023

Cannes 2023: La Passion de Dodin Bouffant / Il Sole dell'Avenire / L'Été Dernier / Perfect Days / La Chimera

 LA PASSION DE DODIN BOUFFANT (dir. Tran Anh Hung)

Benoît Magimel parece ter se tornado a Fênix do cinema francês atual. Após um invejável início de carreira, em que ganhou o prêmio de melhor ator em Cannes por “A Professora de Piano”, em 2001, deu uma escorregada e passou um bom tempo sem papeis à altura de seu talento. Na vida pessoal, se envolveu com drogas, ganhou muito peso e rapidamente perdeu o porte de jovem galã que tinha lá no começo.

Mas nos últimos anos, deu a volta por cima. Ganhou dois prêmios César consecutivos e está em três filmes em Cannes. Um deles, aliás, pode lhe render um segundo prêmio de interpretação masculina.

Trata-se de “La Passion de Dodin Bouffant”, filme do vietnamita Tran Anh Hung rodado na França. É a história de um mestre da gastronomia francês do século 19 (vivido por Magimel), que levava a vida a preparar delícias ao lado de sua cozinheira e companheira Eugenie (Juliette Binoche). Para ambos, a culinária não era apenas um mero preparar de alimentos: era uma maneira de se comunicar – e de declarar amor e afeto um para o outro.

O longa é um “food film” que leva ao extremo a atenção com o filmar o preparo de iguarias. Porque, no filme, isso é a maneira como os personagens de Magimel e de Binoche entram em contato com o mundo – não são tão bons com a palavra como são com o cozinhar de refeições.

Hung também não parece muito hábil com as palavras desta vez; o filme é sempre mais agradável e fluente nas cenas em que os personagens estão cozinhando alguma coisa. Nas cenas em que conversam, porém, parece faltar alguma coisa.

É um filme tanto estranho quanto fascinante – há algo de canhestramente antiquado e deslocado da realidade ali, mas essa desconexão tem lá seu apelo. Os preparos gastronômicos roubam mais da metade do longa, então muita gente há de se irritar um bocado. Mas é uma obra de corajosa originalidade – e, com o perdão do trocadilho, uma iguaria fina e a ser degustada com atenção especial.

 

IL SOLE DELL’AVENIRE (dir. Nanni Moretti)

A pior coisa para um cineasta italiano é tentar ser Federico Fellini (embora Paolo Sorrentino, nas suas investidas fellinianas, tenha em geral tido algum êxito). Nanni Moretti tenta fazer em “Il Sole dell’Avenire” uma espécie de “Oito e Meio” à sua própria moda – ou, se não chega ao mesmo nível de complexidade do longa de Fellini, ao menos a um “A Noite Americana”, de Truffaut, seu filme parece pretender chegar. Conta a história de um cineasta (vivido pelo próprio Moretti) em pleno processo de criação fílmica – passando por problemas de inspiração, crises pessoais, dramas existenciais.

Moretti aposta em um audacioso tudo ou nada: faz um filme um bocado relapso em sua construção – talvez por autoconfiança excessiva, ou por simplesmente não se interessar por como o espectador há de recebe-lo. Quem quiser que aceite – ou deteste o filme e o deixe em paz em sua (enorme) imperfeição.

Como resultado, o longa é absurdamente desigual, com alguns momentos constrangedores, mas aqui e ali o cineasta acaba ganhando a aposta: realiza de fato algumas cenas comoventea.

O filme dentro do filme mostra membros do Partido Comunista Italiano em crise, depois das rebeliões na Hungria, em 1956; a resposta soviética, de truculência extrema, mostra que Stális não era nem de longe a figura a ser seguida como grande parte da intelectualidade de esquerda mundial acreditava que fosse.

Não há muita explicação para que a trama dentro da trama se dê com esse contexto – talvez essa opção seja uma maneira de Moretti falar de si e da sua própria inadequação ao mundo moderno, da mesma forma que grande parte dos membros dos “partidões” comunistas mundo afora se perderam após descobrirem as atrocidades stalinistas.

No caso do Moretti do filme, o cerne é a desilusão com os caminhos em que o cinema seguiu – em uma das melhores cenas, ele se reúne com produtores da Netflix, que mostram a sua real filosofia sobre o cinema, para desespero do diretor.

Não é um filme à altura de obras muito mais buriladas e efetivas do diretor, mas tem um sentimento genuíno de crença no poder do cinema e do sonho de um mundo melhor tão fortes que, apesar das inúmeras fraquezas, o filme consegue impor alguma simpatia a quem se abrir à proposta do diretor. Quem se mantiver avesso ao que ele atabalhoadamente apresenta, certamente há de odiar o que vê na tela.

 

L’ÉTÉ DERNIER (dir. Catherine Breillat)

É bem provável que Catherine Breillat tivesse um interesse especial em adaptar o longa “Rainha de Copas” (2019), da dinamarquesa May el-Thouky, para uma nova versão, desta vez passada na França. Após ver seu filme, no entanto, é difícil concluir que interesse ela tinha. Porque a versão francesa não traz praticamente nada de diferente em relação ao filme que lhe serviu de inspiração – há, sim, um pouco mais de calor nas cenas e na protagonista, mas o longa de Breillat tem exatamente a mesma mensagem e incorre nos mesmos erros narrativos da obra el-Thouky. É um remake até mais problemático, aliás.

Mostra a história de uma advogada cinquentona que se envolve com o filho adolescente que seu marido teve no primeiro casamento. Fundamentalmente, é um filme sobre uma mulher se entregar aos desejos corpóreos, mas é acima de tudo uma obra que mostra as instituições burguesas da família e do casamento como algo que se sobrepõe a qualquer tipo de subversão.

A questão que fica, tanto no filme dinamarquês como no francês, é: trata-se de uma crítica ou de uma defesa dessas instituições? Os dois filmes são decepcionantemente evasivos em relação a isso; optam pelo caminho mais fácil, deixando ao espectador o trabalho sujo que as cineastas optaram por não fazer. Não há a menor justificativa para a existência da versão de Breillat – a não ser facilitar a vida do público francês que tem preguiça de ler as legendas da versão nórdica.  

 

PERFECT DAYS (dir. Wim Wenders)

O cineasta alemão Wim Wenders é o tipo de cineasta que desperta na crítica uma paciência com seus filmes que talvez ele não merecesse. Há anos – décadas – que ele não dirige um longa verdadeiramente efetivo (“Pina” talvez seja a exceção), e ainda assim continua sendo elogiado por filmes bastante frágeis e convidado para grandes festivais.

“Perfect Days”, por um momento, parece ser o grande filme que ele anda devendo. Mostra um limpador de banheiros públicos japonês em sua rotina sem graça, de poucos momentos interessantes, mas cuja inusitada poesia ele próprio consegue enxergar. É um sujeito que quase não fala – e que quase não reage ao mundo que o cerca. É passivo e acomodado – e talvez seja melhor assim, já que não teria condições de ser feliz caso tivesse uma alma um pouco mais rebelde.

O longa consegue nos mostrar esse personagem com alguma habilidade por mais ou menos uma hora, mas chega um ponto em que o filme (e o personagem) se tornam sum bocado irritantes em sua domesticação. Mais do que um gesto de afeto diante de pessoas em situações sociais difíceis, mas que conseguem ser felizes ainda assim, o filme parece fazer uma ode à docilidade.

 

LA CHIMERA (dir. Alice Rohrwacher)

A diretora italiana Alice Rohrwacher tem um olho especialmente bom para detectar figuras que se destacam quando enfocadas por uma câmera de cinema. Foi provavelmente em “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz, que ela descobriu a brasileira Carol Duarte, e reservou a ela um papel de enorme importância em seu longa “La Chimera”, apresentado na competição em Cannes.

E ela consegue perceber em Carol uma fotogenia impressionante; com os cabelos escuros e encaracolados, falando na maior parte do tempo em italiano, a atriz se mostra um objeto cinematográfico precioso. Quando surge na tela, ela reluz; nem Isabella Rossellini (subaproveitada, aliás), expressiva como sempre foi, é capaz de se sobressair diante da brasileira.

O filme mostra um grupo de mercenários cavadores de covas antigas que buscam objetos da civilização etrusca para vender no mercado ilegal. O líder do grupo é um inglês, Arthur, que sabe-se lá por que razão está na Itália e, com seus poderes sobrenaturais, consegue descobrir onde importantes relíquias estão escondidas sob o solo. Carol Duarte interpreta a serva da matriarca de uma família decadente (vivida por Rossellini) que se envolve romanticamente com Arthur.

Rohrwacher é uma cineasta que nunca se interessou muito pela clareza narrativa; seus filmes investem antes em informações sensoriais e em elementos do absurdo, do não dito, do pouco óbvio. Em sua filmografia, é sempre um desafio insuperável entender exatamente o que se passa em sua cabeça ao compor as tortuosas vias que ela cria em seus roteiros. Mas, ao menos até o momento, a falta de literalidade e a paixão por surpreender o espectador é parte da grandeza dos seus filmes. O barroco de sua obra é o que a torna uma das maiores diretoras em atividade hoje em dia.

“La Chimera” tem muitas questões sem resposta e não é um filme satisfatório em sua totalidade como era, por exemplo, seu último longa, “Lazzaro Felice”. Em seu novo filme, ela vem mais alegórica e obtusa do que nunca, e talvez muitos simpatizantes de sua obra não consigam acompanhá-la desta vez.

Mas essa sua fábula sobre a exploração dos muito ricos em cima do resto da humanidade, sobre a ganância em contraponto ao interesse pelo bem comum, tem tantos momentos esteticamente poderosos que, a certo ponto, pouco importa se a diretora se atrapalha na hora de elaborar o seu discurso fílmico. É uma cineasta extraordinária, com uma visão tão peculiar sobre o mundo – e sobre o nosso mundo atual – que mesmo quando extrapola em seu hermetismo e fala consigo própria, consegue transmitir mensagens ao espectador. Afinal, estética é exatamente isso: transmissão de conteúdo pelos sentidos, o que Rohrwacher faz como ninguém.

Nenhum comentário:

Postar um comentário