domingo, 17 de maio de 2026

Cannes 2026: James Gray e Rodrigo Sorogoyen

É curioso perceber o quanto a memória do estadunidense James Gray sobre os anos 1980 costuma surgir deturpada quando ele transporta suas lembranças do período para a tela. Em “Armageddon Time”, de 2021, inspirado em sua infância em meio familiar em Nova York, a trama se passava no começo daquela década, mas era tudo tão evanescido, recatado, que o longa parecia se passar nos anos 1950. (Em espírito, a obra talvez antecedesse essa época). O filme foi recebido com a devida falta de entusiasmo – era sobre as memórias de Gray na puberdade, mas sempre em um registro de comedimento emocional que pouco ou nada diziam ao espectador.

“Paper Tiger”, que foca a mesma família, apenas alguns anos depois, também dá a impressão de ser um filme que se passa em alguma década mais antiga. Mas Gray parece ter aprendido a lição com o fracasso do filme anterior: pela primeira vez na carreira, abraçou a emoção e não teve medo de mostrá-la na tela. Dispensou aquele minimalismo distanciador que tanto gera indiferença a sua obra, ainda que parte da crítica o idolatre justamente por essa sobriedade em sua realização. Seu cinema, aqui, ganha viço.

Apesar de se passar na mesma família, agora mudaram o elenco e o nome dos personagens, mas a estrutura é a mesma. Irwin Pearl é um engenheiro que vive com a mulher Hester e dois filhos adolescentes em uma casa confortável, mas sem luxos em Nova York. Certo dia, o tio dos garotos, Gary, faz uma proposta profissional ao irmão para trabalhar em território comandado pela máfia russa nova-iorquina; ali, parece que os problemas financeiros da família Pearl vão finalmente acabar.

Mas o pai acaba testemunhando acidentalmente parte das atividades criminosas dos mafiosos, tornando-se alvo de uma perseguição. Gary tenta protegê-los, mas iniciar encrenca com os russos não é algo tão fácil de resolver, e o filme então se torna uma história de gângsters narrada com excelente domínio e equilíbrio.

Miles Teller, como o pai, Scarlett Johansson, como a mãe, e Adam Driver, no papel do tio, têm performances notáveis. E Gray trata tudo com grande fluência narrativa e alguns momentos com uma câmera capaz de virtuosismos incomuns em sua obra. É um cinema de feitura clássica, por certo, com uma visão sobre a força das relações familiares que pode soar por demais antiquada hoje em dia – o filme também se enquadra em uma tradicional visão hollywoodiana de um mundo partido entre mocinhos e bandidos. Mas a relação entre os irmãos e a forma como Hester interage com ambos é mais complexa do que aparenta. Gray é um guardião de uma linhagem cinematográfica que parece ter dias contados, mas que, quando bem realizada, ainda é capaz de obter fabulosos efeitos.    

Que Javier Bardem é capaz de performances magníficas não é novidade para ninguém, mas quem estava preparado para o que ele faz em “El Ser Querido”, do espanhol Rodrigo Serogoyen?

Bardem é Esteban Martínez, um cineasta espahol que ganhou o mundo e se tornou uma estrela oscarizada em Hollywood. Mas depois de muito sucesso, resolveu voltar à Espanha natal para rodar um novo filme, aproveitando a oportunidade para retomar contato com Emilia, sua filha que começa a carreira de atriz, a quem ele jamais deu atenção. Mas com quem, agora, ele acredita poder finalmente se entender – começa reservando a ela um papel importante em seu novo trabalho.

O filme tem por foco as filmagens, em que um Esteban voluntarioso, exigente e não raro violento comanda seu filme com um senso de autoridade tão apurado quanto misterioso: é como se ele precisasse mostrar, no set, que ele é quem manda (não sabemos a quantas anda sua carreira internacional hoje em dia, mas é provável que as coisas não estejam muito bem).

Esteban se esforça para se aproximar da filha, mas a cada tentativa de toque é como se suas mãos se tornassem garras: seus afagos terminam sempre como patadas. E Emilia, ainda que compreensivelmente fique tensa diante da opressora figura paterna, de vez em quando mostra que teve a quem puxar: quando encurralada, torna-se uma fera de alto poder de contusão. No papel da filha, Victoria Luengo consegue o milagre de jamais ser eclipsada; quando ela imita o pai diante do espelho, forja um olhar satânico que é tão apavorante quanto o do seu genitor – nunca se pode negar a força do DNA.

Sorogoyen realiza um filme sobre um homem que acumulou muito poder na vida, mas que, a certo ponto, precisa lidar com questões que abafou ao longo de sua trajetória em nome de poder chegar onde chegou. O problema é que, uma vez poderoso, sempre se reluta diante da perda de privilégios, e Estebán, o cineasta tirânico de tempos em que um artista podia fazer os piores absurdos enquanto criava, não consegue se adaptar à nova realidade, mais atenta a abusos em ambientes de trabalho. Como resultado, torna o set de filmagens um inferno.

O filme tem uma sequência formidável, em que os atores são filmados em uma refeição a céu aberto, mas a cena é sempre impedida por algum acaso que impede que as coisas saiam como Esteban havia planejado. O que começa como uma situação divertida, evolui para um trecho hilário, para se tornar logo em seguida aflitivo e terminar como uma sequência simplesmente apavorante. E nessa situação, apenas, Sorogoyen injeta tantas questões relativas a situações de poder que é praticamente um compêndio do significado geral do longa.

Como Esteban, Bardem atinge um nível de intensidade atordoante como poucas vezes já se viu. Ele tem dores e tristezas na alma, mas sua fúria o impede de deixar transparecer exatamente que tipo de vulnerabilidade existe no fundo de seu olhar. A imperiosa presença dele na tela traz uma carga enérgica de uma entidade que não parece sequer humana; é como se fosse um monstro. É um personagem de filme de terror – ele vai tão longe na composição que, quando surge no quadro para conversar com a filha, sua presença traz uma carga de tensão que faz lembrar quando a Joan Crawford de Faye Dunaway, em “Mamaezinha Querida”, aparecia com creme no rosto e cabide de metal nas mãos diante da filha Christina. Mas em vez do aspecto camp, o que ele emana é pavor – é uma das performances mais assustadoras de que se tem notícias.

 “El Ser Querido” é um estudo de um confronto de personalidades, sobretudo quando uma delas, dominante, encontra-se em eminente declínio. É sobre falta de comunicabilidade entre pai e filha e sobre visões de mundo distintas entre pessoas de gerações diferentes. Mas, sobretudo, é um filme sobre a brutalização de alguém, que perde a capacidade de tocar e ser tocado. Uma pessoa que perdeu a própria humanidade.

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