
É curioso perceber o quanto a memória do estadunidense James
Gray sobre os anos 1980 costuma surgir deturpada quando ele transporta suas
lembranças do período para a tela. Em “Armageddon Time”, de 2021, inspirado em
sua infância em meio familiar em Nova York, a trama se passava no começo daquela
década, mas era tudo tão evanescido, recatado, que o longa parecia se passar nos
anos 1950. (Em espírito, a obra talvez antecedesse essa época). O filme foi
recebido com a devida falta de entusiasmo – era sobre as memórias de Gray na
puberdade, mas sempre em um registro de comedimento emocional que pouco ou nada
diziam ao espectador.
“Paper Tiger”, que foca a mesma família, apenas alguns
anos depois, também dá a impressão de ser um filme que se passa em alguma
década mais antiga. Mas Gray parece ter aprendido a lição com o fracasso do
filme anterior: pela primeira vez na carreira, abraçou a emoção e não teve medo
de mostrá-la na tela. Dispensou aquele minimalismo distanciador que tanto gera
indiferença a sua obra, ainda que parte da crítica o idolatre justamente por
essa sobriedade em sua realização. Seu cinema, aqui, ganha viço.
Apesar de se passar na mesma família, agora mudaram o elenco
e o nome dos personagens, mas a estrutura é a mesma. Irwin Pearl é um
engenheiro que vive com a mulher Hester e dois filhos adolescentes em uma casa confortável,
mas sem luxos em Nova York. Certo dia, o tio dos garotos, Gary, faz uma
proposta profissional ao irmão para trabalhar em território comandado pela
máfia russa nova-iorquina; ali, parece que os problemas financeiros da família Pearl
vão finalmente acabar.
Mas o pai acaba testemunhando acidentalmente parte das
atividades criminosas dos mafiosos, tornando-se alvo de uma perseguição. Gary
tenta protegê-los, mas iniciar encrenca com os russos não é algo tão fácil de
resolver, e o filme então se torna uma história de gângsters narrada com
excelente domínio e equilíbrio.
Miles Teller, como o pai, Scarlett Johansson, como a mãe, e
Adam Driver, no papel do tio, têm performances notáveis. E Gray trata tudo com grande
fluência narrativa e alguns momentos com uma câmera capaz de virtuosismos
incomuns em sua obra. É um cinema de feitura clássica, por certo, com uma visão
sobre a força das relações familiares que pode soar por demais antiquada hoje
em dia – o filme também se enquadra em uma tradicional visão hollywoodiana de um
mundo partido entre mocinhos e bandidos. Mas a relação entre os irmãos e a
forma como Hester interage com ambos é mais complexa do que aparenta. Gray é um
guardião de uma linhagem cinematográfica que parece ter dias contados, mas que,
quando bem realizada, ainda é capaz de obter fabulosos efeitos.
Que Javier Bardem é capaz de performances magníficas não é
novidade para ninguém, mas quem estava preparado para o que ele faz em “El Ser
Querido”, do espanhol Rodrigo Serogoyen?
Bardem é Esteban Martínez, um cineasta espahol que ganhou o
mundo e se tornou uma estrela oscarizada em Hollywood. Mas depois de muito
sucesso, resolveu voltar à Espanha natal para rodar um novo filme, aproveitando
a oportunidade para retomar contato com Emilia, sua filha que começa a carreira
de atriz, a quem ele jamais deu atenção. Mas com quem, agora, ele acredita
poder finalmente se entender – começa reservando a ela um papel importante em
seu novo trabalho.
O filme tem por foco as filmagens, em que um Esteban
voluntarioso, exigente e não raro violento comanda seu filme com um senso de
autoridade tão apurado quanto misterioso: é como se ele precisasse mostrar, no
set, que ele é quem manda (não sabemos a quantas anda sua carreira
internacional hoje em dia, mas é provável que as coisas não estejam muito bem).
Esteban se esforça para se aproximar da filha, mas a cada
tentativa de toque é como se suas mãos se tornassem garras: seus afagos
terminam sempre como patadas. E Emilia, ainda que compreensivelmente fique
tensa diante da opressora figura paterna, de vez em quando mostra que teve a
quem puxar: quando encurralada, torna-se uma fera de alto poder de contusão. No
papel da filha, Victoria Luengo consegue o milagre de jamais ser eclipsada; quando
ela imita o pai diante do espelho, forja um olhar satânico que é tão apavorante
quanto o do seu genitor – nunca se pode negar a força do DNA.
Sorogoyen realiza um filme sobre um homem que acumulou muito
poder na vida, mas que, a certo ponto, precisa lidar com questões que abafou ao
longo de sua trajetória em nome de poder chegar onde chegou. O problema é que,
uma vez poderoso, sempre se reluta diante da perda de privilégios, e Estebán, o
cineasta tirânico de tempos em que um artista podia fazer os piores absurdos
enquanto criava, não consegue se adaptar à nova realidade, mais atenta a abusos
em ambientes de trabalho. Como resultado, torna o set de filmagens um inferno.
O filme tem uma sequência formidável, em que os atores são
filmados em uma refeição a céu aberto, mas a cena é sempre impedida por algum
acaso que impede que as coisas saiam como Esteban havia planejado. O que começa
como uma situação divertida, evolui para um trecho hilário, para se tornar logo
em seguida aflitivo e terminar como uma sequência simplesmente apavorante. E
nessa situação, apenas, Sorogoyen injeta tantas questões relativas a situações
de poder que é praticamente um compêndio do significado geral do longa.
Como Esteban, Bardem atinge um nível de intensidade atordoante
como poucas vezes já se viu. Ele tem dores e tristezas na alma, mas sua fúria o
impede de deixar transparecer exatamente que tipo de vulnerabilidade existe no
fundo de seu olhar. A imperiosa presença dele na tela traz uma carga enérgica de
uma entidade que não parece sequer humana; é como se fosse um monstro. É um
personagem de filme de terror – ele vai tão longe na composição que, quando surge
no quadro para conversar com a filha, sua presença traz uma carga de tensão que
faz lembrar quando a Joan Crawford de Faye Dunaway, em “Mamaezinha Querida”,
aparecia com creme no rosto e cabide de metal nas mãos diante da filha
Christina. Mas em vez do aspecto camp, o que ele emana é pavor – é uma das
performances mais assustadoras de que se tem notícias.
“El Ser Querido” é um
estudo de um confronto de personalidades, sobretudo quando uma delas,
dominante, encontra-se em eminente declínio. É sobre falta de comunicabilidade
entre pai e filha e sobre visões de mundo distintas entre pessoas de gerações
diferentes. Mas, sobretudo, é um filme sobre a brutalização de alguém, que
perde a capacidade de tocar e ser tocado. Uma pessoa que perdeu a própria
humanidade.






