quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Festival de Berlim 2018 - crítica: "Isle of Dogs"

(Isle of Dogs, Wes Anderson)
Cena da animação que abriu a Berlinale 2018

Wes Anderson abriu a Berlinale 2018 com "Isle of Dogs", animação em stop motion sobre um garoto que vai a uma ilha atrás de seu cãozinho de estimação. O pano de fundo é a fictícia cidade de Megasaki, em um Japão futurista, quando cachorros são isolados da sociedade, vistos como uma ameaça à saúde pública (na verdade, interesses políticos criam uma situação para apartar os bichinhos do mundo humano).

A técnica de animação é impressionante: as imagens sugerem por vezes teatros de fantoches, outras animações orientais. Alguns detalhes são surpreendentemente realistas (a textura da pele de alguns personagens, por exemplo, ou as expressões faciais 'humanas' de alguns cães – se bem que, neste caso, não se pode falar exatamente em "realismo"). O filme é muito feliz na escolha e composição das cores, sóbrias e em tons terrosos; visualmente, é um trabalho de magnífica sofisticação e bom gosto.

Embora seja "para toda a família", é claramente um filme pensado no público adulto. Mas uma animação que se pretenda para pessoas maiores de idade (na verdade, mesmo as feitas especificamente para as crianças deveriam ser assim) precisaria trazer algum comentário sobre o mundo humano – oferecer alguma alegoria por trás da fabulação animada. Mas Anderson parece antenado unicamente aos aspectos visuais e narrativos de seu longa; a verdade é que o filme é quase oco de significado. É claro que deve ter havido alguma intenção mais ou menos política na opção por mostrar cachorros forçados viver separados da sociedade, como se fossem ameaças ou seres de uma categoria inferior. Talvez seja um aceno à questão dos imigrantes e refugiados, ou é possível que seja uma forma de falar de minorias sociais. Mas é preciso ser sincero: qualquer que seja a associação, ela seria fruto da mais pura boa vontade do espectador; o que o filme oferece não tem estofo o suficiente para nenhuma leitura de fundo mais social. Anderson não desenvolve personagens e nem situações o suficiente para o filme ter qualquer ressonância em um nível político; está bem mais preocupado com aspectos formais e, sobretudo, narrativos.

Uma das enormes preocupações é em como narrar para o grande público – e fazê-lo especificamente em inglês – uma história em que a maior parte dos personagens se comunica ou latindo ou falando em japonês. As boas e velhas legendas resolveriam o problema às mil maravilhas – ou então usar da "licença poética" de convencionar o inglês como língua corrente. Mas o roteiro dedica-se com afinco, então, a resolver isso com alguma verossimilhança (uma tolice sem tamanho: desde quando cachorros que pensam e falam como humanos são minimamente verossímeis?). Então perde tempo tempo com atitudes como introduzir uma intérprete de palestras e programas de TV traduzindo os grandes discursos governamentais (e tendo tiradas engraçadinhas) ou incluir uma estudante americana de intercâmbio no Japão como uma das personagens principais. (A ideia é um erro colossal: como ela é a única personagem de fato politizada, que toma atitudes, soa racista por parte do roteiro optar  justamente pela estrangeira da história como a única que toma algum posicionamento firme diante do governo corrupto de Megasaki; a ideia é de uma inabilidade assustadora).

Anderson disse na coletiva de imprensa que sua inspiração foi sobretudo o cinema mais contemplativo de alguns diretores japoneses. Pode ser, porque de fato sua narrativa é arrastada demais para os parâmetros ocidentais, mas o roteiro quer o tempo todo compensar isso com uma profusão de idas e vindas temporais didáticas e sem a menor necessidade, que mais emperram a narrativa que a dinamizam. As digressões só atrapalham: são tropeços que impedem que o espectador se conecte aos personagens. Os cachorros ao menos são inofensivos, e de vez em quando são até simpáticos, mas nenhum deles tem carisma o suficiente para dar algum vigor ao filme ou aproximá-lo do coração do público (e quando um diretor não consegue fazer um filme repleto de cãezinhos fofos conquistar a paixão do espectador, é sinal de que alguma coisa saiu muito errada).

Os fãs de Wes Anderson talvez até gostem do filme, porque vão reconhecer o mesmo estilo de humor e de narração de seus trabalhos com atores. Mas tirando o aspecto de citação a seus filmes pregressos e a sempre grande boa vontade de seu fã-clube, talvez nem mesmo o ser mais apaixonado por cães se importe minimamente com este filme – que, no fim das contas, tem pelo menos uma inquestionável qualidade: é curto.


Nenhum comentário:

Postar um comentário