quinta-feira, 17 de maio de 2018

Cannes 2018 - Crítica: "Dogman"

Dogman, de Matteo Garrone

O excelente Marcello Fonte e seus amigos cães em "Dogman"
O novo filme de Matteo Garone, “Dogman”, narra a história de Marcello (Marcello Fonte), um dono de uma pet shop especializada em dar banho em cães, em uma cidade pobre da Itália. Com o sonho de poder fazer uma longa viagem com a filha pequena, ele aumenta os ganhos passando adiante cocaína para conhecidos – um deles, o agressivo Simone, vira uma pedra em seu sapato quando começa a agir com violência extrema na hora em que a dependência química fala mais alto. (O rapaz é uma versão adulta dos garotos grandalhões do colégio que fazem bullying com os menores, espalhando pânico por onde passam.)

Um dia, Simone planeja um roubo da loja vizinha à de Marcello e promete que, se contar com sua ajuda, o dono do pet shop levará uma alta soma em euros. Mas as coisas não saem como o esperado, e Marcello, mesmo tendo a oportunidade de denunciar Simone e se livrar da enrascada, opta por não fazer isso, indo parar na cadeia em nome do amigo.

É curioso notar que o filme de Matteo Garrone de certa forma repete o tema – ou parte dele – do outro longa italiano apresentado na competição, o extraordinário “Lazzaro Felice”, de Alice Rohrwacher. Ambos falam de inocência, pureza, em meio a um mundo corrupto e em que a maldade corre solta. Mas Marcello não é extamente um santo: ele também contribui com a criminalidade – além de vender drogas, não vê problemas em receber dinheiro sujo e até é conivente com assaltos. 

Mas a recompensa financeira nem é o que o move nessa sua conivência com o banditismo. O começo do filme traz uma cena em que isso fica claro: quando ajuda dois amigos a roubarem uma mansão (ele é o motorista na operação), o faz menos por interesse material do que por falta de coragem. Mas não se trata apenas de um pavor físico de ser violentado caso não ajude os comparsas sanguinários; seu medo é sobretudo moral, de desapontar os amigos e, assim, ser rejeitado. Antes do que um “covarde”, Marcello é acima de tudo um dependente afetivo, incapaz de dizer um “não”.

É dependente, também, de sua natureza bondosa. Quando, nesse roubo do início, um dos amigos revela perversamente que prendeu no freezer um chihuahua que latia e poderia colocar o assalto a perder, Marcello decide voltar sozinho ao local do crime e se arriscar apenas para salvar o pobre animal congelado. E se o filme se chama “Dogman” (homem-cão), obviamente que não é apenas porque ele é o sujeito que cuida de cães na cidade; Marcello tem uma natureza dócil, afável e fiel como a de um cachorro.

O filme de Garrone mexe muito com o emocional do público, e mesmo que haja uma manipulação pouco disfarçada do roteiro, inclusive pelo próprio paralelo entre o homem e o cão (e quem não se comove com a bondade canina?), em diversos momentos a emoção que ele extrai do espectador é bastante honesta. Vem sobretudo da brilhante atuação de Marcello Fonte, um sujeito mirrado, que se move de maneira um tanto clownesca, mas que exala humanidade por meio de sua figura calejada por uma vida certamente repleta de privações. Mesmo a sua voz fanha, de uma garganta pouco proteica, traz uma doçura muito especial em meio a estridência. É uma figura comovente de olhar e ouvir.

Grande parte das atitudes do personagem podem ser atreladas à sua busca de aceitação, ou mais propriamente de amor. O filme, ainda que seja aflitivo (pelas atitudes por demais submissas do protagonista), é sempre verossímil e cativante quando insiste em mostrar esse comportamento. Mas quando na reta final Garrone ensaia uma mudança de atitude perante a vida por parte do personagem – tornado-o, inclusive, um tanto materialista, além propenso à violência – o longa perde um pouco da verossimilhança, porque isso não combina em definitivo com o que a conduta que o personagem vinha apresentando desde então. 

Tudo leva a crer que a mudança é intencional: é apenas uma tentativa de emancipação por parte de Marcello em relação aos demais. Mas o salto é feito de maneira um tanto brusca; alguma coisa não funciona muito bem ali. No entanto, a figura que fica é a do Marcello doce, afável, tão simpático e amável como qualquer um dos cães de que ele toma conta. É um personagem memorável, e se Fonte sair consagrado com o prêmio de melhor ator será um instante luminoso e de grande justiça por parte dos membros do júri.

Nenhum comentário:

Postar um comentário