quarta-feira, 9 de maio de 2018

Cannes 2018 - Crítica: "Donbass"

Donbass, de Sergei Loznitsa
Cena do filme "Donbass", da mostra Un Certain Regard

Sergei Loznitsa é um diretor de talento excepcional e parece saber disso. Mas é o tipo de artista a quem a autoconfiança não é muito saudável. Porque de filme a filme (ao menos os de ficção, porque sua brilhante obra documental segue outro princípio), tem enveredado por um caminho cada vez mais discutível, muito certo de que, ao intensificar sua denúncia corrosiva da vida pós-soviética na Rússia e Ucrânia, está fazendo um grande bem à humanidade.

Seu leitmotiv tem sido mostrar nem tanto as contradições, mas sobretudo a herança nefasta do comunismo para esses países, o que se pode notar tanto na imutável estrutura burocrática estatal, jamais superada, quanto na assimilação da violência como elemento naturalizado, até cultural, nas relações humanas da cultura russa/eslava atual.

Em seu primeiro longa, o extraordinário "Minha Felicidade", isso já se fazia notar com força, assim como no seu trabalho mais recente, "A Gentle Creature", que ele mostrou ano passado em competição em Cannes. Neste último, um tanto irregular, ele não dava trégua a sua protagonista: era uma personagem que sofria diretamente todas as mazelas do pós-comunismo – e permanecia calada, aceitando cada desgraça como se estivesse predestinada àquilo. Mas ali, apesar de tudo, ficava mais ou menos marcada uma certa condescendência do diretor com a sua personagem, que era claramente uma vítima; ao seu modo, o filme se solidarizava com ela, como que em uma piedosa empatia pelo horror ao qual ela não podia escapar.

Mas em "Donbass", o filme apresentado por Loznitsa hoje em Cannes (na mostra Un Certain Regard), não há mais o menor traço de comiseração. O diretor parece ter chegado a um ponto em sua carreira que se encantou a tal nível com a própria capacidade de ser combativo, crítico com o modo de vida em seu país, que ficou insensível para a tragédia alheia em si. Seu cinema perdeu por completo o último resquício de humanismo e se tornou altamente sádico, para não dizer cruel. Ao que tudo indica, Loznitsa agora tem prazer em encenar o sofrimento humano.

A história se passa na região de Donbass, Ucrânia, onde o caos social impera, com grupos de nazistas ameaçando o estado. Em reação a isso (usando como mera desculpa para se fortalecer?), o governo investe na força bruta e na retomada do controle social nos moldes de como provavelmente funcionava na era stalinista. Ideologicamente, é um filme confuso; a ideia é claramente mostrar toda sua aversão à herança soviética e em como ela ainda marca as decisões sócio-políticas na região. Mas em vários instantes dá a entender que até o nazismo era preferível ao que se tem hoje em Donbass – o que, convenhamos, não é lá uma base de comparação das mais sensatas.

O filme é de uma violência atroz, por vezes cortada por cenas com um pé no surrealismo que se pretendem um alivio ao peso insustentável das sequências mais truculentas (mas que, em seu humor estilizado, quase expressionista, são praticamente tão amedrontadoras quanto as de violência física). "Donbass" parece sempre ir longe demais, em tudo, mas isso se percebe em especial em uma sequência abjeta envolvendo um homem que desafiou o governo e é exposto em praça pública. Atado a uma placa dizendo algo como "Voluntário para ser fuzilado", o sujeito é entregue à fúria de uma população pouco esclarecida e despolitizada, que o violenta, humilha e tortura, em um linchamento que todos nós sabemos que é bem possível de acontecer no mundo atual (e não só na Rússia e Ucrânia).

Bastaria um minuto de cena – dois no máximo – para o diretor transmitir a ideia do quanto a atitude dos justiceiros pode ser execrável, mas Loznitsa prolonga a sequência por tanto tempo que ultrapassa qualquer limite do humanisticamente tolerável. Nota-se ali o quanto a segurança do cineasta em seus próprios métodos de mostrar em sua "arte" a miséria do mundo é capaz de cegá-lo, afastando-o de sua intenção critica original; o diretor e seu filme se tornam tão violentos quanto quem ele pretende recriminar.

Que tipo de denúncia de catástrofe social é essa, que investe com tanta insistência no sofrimento alheio, de maneira quase voyeuse? Loznitsa pode ser até um humanista em essência (e muitos de seus documentários e curtas atestam isso), mas seu cinema de ficção toma em "Donbass" um rumo completamente oposto. Apesar de uma realização cinematográfica notável (como se Loznitsa fosse uma Leni Riefenstahl bem intencionada), espera-se que não seja o início de um perigoso caminho sem volta.


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