sábado, 12 de maio de 2018

Cannes 2018 - Crítica: Le Livre d'Image


Le livre d'image, de Jean-Luc Godard

Trecho de "Le Plaisir" na colagem "Le Livre des Images"

Ver uma estreia mundial de um novo Jean-Luc Godard, no Festival de Cannes, e ainda por cima em competição, é um evento cinematográfico e tanto, independentemente do filme em si. Mas “Le Livre d'Image” atinge momentos de excelência que o cineasta veterano não conseguia desde “Nossa Música” (2004), seu melhor filme do terceiro milênio.

O longa apresentado ontem na sala Lumière tem parentesco com “Historia(s) do Cinema”, no sentido de realizar uma colagem de diversos filmes, com ruídos e comentários em off, mas com uma pretensão mais filosófico-histórica sobre a humanidade do que sobre a estética dos filmes. Há também cenas breves de reportagens, vídeos amadores, registros de obras de arte, imagens feitas por computador... um caos imagético, enfim.

A ideia é falar sobre o ser humano e sua relação com o mundo a partir desse vastíssimo repertório de imagens escolhidos pelo cineasta. Sem esconder que uma imagem (e um discurso, em geral) sempre traz uma representação de algo, não aquele algo em si. Um registro imagético também é uma mentira, e esse jogo entre o que se vê, o que é real, o que é versão, ques e estende, também, para a interpretação do que se apresenta como imagem. Talvez para lembrar isso que, no início, Godard inclui um trecho de “Johnny Guitar”, um de seus fetiches, em que Joan Crawford diz a Sterling Hayden uma mentira que ele deseja ouvir (o cineasta logo manipula e cena e deixa apenas o som do que é dito, sem a imagem, em um tipo de procedimento audiovisual que ele apresentará ao longo de todo o filme). O espectador está, então, devidamente alertado sobre o que vem adiante.

No comecinho, a voz do próprio Godard diz: “A verdadeira condição humana consiste em pensar com as mãos”. Se juntarmos com uma das últimas frases do longa (“Eu ainda acredito na revolução”), talvez seja possível encontrar uma das chaves para interpretar e absorver este enigmático filme-mosaico: seria uma forma de dizer que é próprio do ser humano a reflexão e também a ação; é isso que nos move e dá sentido à nossa existência.

A imagem da mão é a metáfora utilizada por Godard para estruturar seu filme em cinco partes, como se cada uma fosse um dos dedos. A primeira, “Remakes”, é a mais fácil de acompanhar, porque mesmo que Godard sempre use uma lógica muito própria de escolher e concatenar as cenas de seus filmes, aqui a intenção é sempre clara. Vemos imagens de longas conhecidos (“Salò”, “Paisà” etc) alternadas com cenas de guerra recentes, e não é muito difícil de compreender o sentido dessa justaposição: mostra a tendência humana a sempre repetir os mesmos erros. As situações geopolíticas do mundo são constantes “remakes” de outras já vividas, apenas em novas roupagens, de acordo com os novos contextos.

A segunda parte tem por título “As Noites de São Petersburgo”. Leva a crer que é um prolongamento filosófico sobre a revolução socialista, sobre união dos mais fracos no rumo de sua emancipação, mas o conceito nunca é devidamente explorado nem fica muito claro. Algo que chama a atenção, porém, é o foco em vários instantes sobre a situação feminina – a cenas desoladoras de mulheres humilhadas e violentadas, em filmes de ficção e da vida real. Talvez, o desdobramento necessário para uma real luta de oprimidos contra opressores, nos diz Godard, passe por uma consciência mais ampla de exploração, que não só a econômica. Mas sabe-se lá se era mesmo essa a intenção do diretor; a leitura cabe, de qualquer forma, e se encaixa como uma luva na sensibilidade moderna: embora viva isolado na Suíça, ao que parece Godard acompanha de perto as lutas identitárias femininas.

A terceira parte é mais poética, lírica: usa o trem como metáfora para a vida enquanto passagem, viagem. Mas também como forma de transportar fisicamente as pessoas, povos que migram de um ponto a outro – os judeus, por exemplo (aos campos de concentração, mas também à terra prometida). Pela própria elasticidade simbólica da proposta, as liberdades tomadas pelo diretor tendem a ser mais bem aceitas nesse trecho – que, de fato, traz alguns dos momentos mais bonitos do filme.

A parte a seguir, “O Espírito das Leis”, fala de repressão estatal e legal e de conflitos humanos. É o trecho mais sanguinário, mas talvez o menos feliz, porque embora o conceito seja claro, a (não-)narrativa, que até então corria com fluidez, começa a apresentar desgastes; a fórmula da colagem começa a perder o efeito de maravilhamento e de fruição intelectual que o filme conseguia no começo. Mas resta espaço para trechos instigantes: “O terrorismo é reconhecido como uma das artes”, diz um provocativo recorte de jornal (se não me engano, já usado em algum outro filme do proprio Godard), e talvez com essa frase polêmica o diretor esteja querendo ressaltar a necessidade de a arte ter um poder de mudança social, ainda que violento.

O trecho final, “A Região Central”, é especificamente sobre o mundo árabe; a ideia é mostrar que a civilização humana nasceu ali e que ainda hoje é no Oriente Médio e adjacências que os maiores conflitos se prolongam. É uma região “central” em termos de importância geopolítica, sim, mas também em termos de compreensão da organização social humana. Godard faz uma narrativa complexa em off, sobre um suposto reino árabe, sobre a relação entre um rei e seu primo. Infelizmente, os ruídos do filme (de som e imagem) impedem que se compreenda exatamente o que a metáfora quer dizer. Mas as imagens são sempre expressivas e dão uma boa noção do paralelo entre mundo árabe e mundo humano que Godard pretende.

O filme termina de maneira anticlimática, com os créditos surgindo do nada, quando o filme parecia ainda ter muito o que mostrar, mas a história é arrematada mais adiante de maneira pungente: o último fotograma traz a famosa cena de “Le Plaisir”, de Max Ophuls, em que o dançarino mascarado cai na pista de dança. Traz a visão final do filme sobre a condição humana: a falibilidade dos homens, a capacidade de tentar sempre viver, de conseguir prazer, mas falhar em algum momento por conta de suas próprias limitações. “Le Livre d'Image”, ao que parece, é um filme muito mais compreensivo das falhas humanas que condenatório. É um dos filmes mais humanistas da carreira de Godard.

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