quarta-feira, 9 de maio de 2018

Cannes 2018 - Crítica: Todos lo Saben [Everybody knows]

Todos lo saben [Everybody knows], de Asghar Farhadi

Penélope Cruz e Javier Bardem em "Todos lo Saben"

O iraniano Asghar Farhadi tem um notável apreço por dilemas morais, mas com seu filme mais recente, "Todos lo Saben", ele parece ter desenvolvido uma real obsessão nesse sentido. Depois de uma primeira meia hora em que nada de muito relevante acontece (a habitual preparação de terreno do diretor para o que realmente interessa), o filme de repente se dedica a uma interminável rede de revelações de segredos que se sucedem, colocando os personagens em situações que testam seus os limites morais, cada uma parecendo criada para ser mais intensa que a imediatamente anterior.

Em sua primeira produção espanhola, que Cannes escolheu para inaugurar sua 71a edição, Farhadi conta a história do sequestro de uma adolescente, com foco na aflição à qual são submetidos os pais da menina (Penélope Cruz e Ricardo Darín) e, por motivos inusitados, um amigo do casal (Javier Bardem). A direção é eficaz, e por um tempo se pode acompanhar com grande interesse a teia de acontecimentos que a mente algo mirabolante de Farhadi preparou para o público, com instantes de thriller de alta qualidade.

Mas o filme peca pelo excesso: não demora muito até o exagero no melodrama pesado (acentuado pelo ambiente e língua espanhóis, que atuam contra o filme) se sobrepor à complexidade moral pretendida pelas situações; o longa, de repente, se torna uma espécie de telenovela latino-americana só que em estética mais limpa e que se dedica a ser profunda e complexa (em um formato em que profundidade e complexidade são quase que por definição inatingíveis plenamente).

Torna-se difícil de levar o filme completamente a sério, embora seja claro que Farhadi não esteja brincando. Talvez ele apenas não tenha o hábito de assistir aos dramalhões ocidentais, e por isso seu filme transite pelo gênero de maneira tão destemida, como que sem a menor preocupação em soar ridículo. Infelizmente, porém, várias vezes ultrapassa os limites do drama honesto e fica propenso a um rocambolesco vale de lágrimas.

Cruz e Bardem têm boas cenas, e Ricardo Darín até se sai bem, apesar de em geral desperdiçado. Na primeira parte do filme, quando "nada" acontece, a câmera de Farhadi volta e meia se atém a detalhes curiosos, que posteriormente não conseguem sair da sombra das reviravoltas que a mão pesada do roteiro impõem ao filme. Sim: há dispensáveis metáforas envolvendo pombos (nas artes, haveria algum outro animal mais desgastado em termos de uso simbólico? Difícil pensar em algum), mas há um certo frescor na maneira como o cineasta observa certas situações. Por exemplo: é refinada a forma como, em uma festa de casamento, quando todos se divertem, uma criança e um idoso são apresentados como pessoas à margem; na nossa sociedade, quem dá as cartas são mesmo os adultos/jovens e suas pulsões, desejos e interesses.

Mas depois, embora o longa introduza alguns promissores dilemas éticas, resvala para o melodrama não-intencional. Mas não é um filme tão descartável como a frieza na sessão de estreia faz parecer que seja. É apenas um longa que toma caminhos equivocados e que, por isso, não desenvolve a contento suas possibilidades, mas não se pode negar que há um rico material bruto ali (explicar muito a trama incorreria em desagradáveis spoilers). Embora no todo não seja um filme nada impecável, em algumas partes é a melhor coisa que Farhadi já fez em sua supervalorizada carreira.

Nenhum comentário:

Postar um comentário