terça-feira, 17 de janeiro de 2017

"La La Land - Cantando Estações"

(La La Land, 2016), de Damien Chazelle


O texto abaixo é uma reprodução da reportagem crítica escrita por mim e publicada no site UOL no dia da première mundial de "La La Land". O longa abriu a competição do Festival de Veneza, em agosto de 2016. Saiu de lá premiado com a Copa Volpi de melhor atriz para Emma Stone (escolha a meu ver injusta, já que havia concorrentes de mais categoria, como Natalie Portman, por "Jackie"). Confira, abaixo da imagem, o texto na íntegra (que pode ser também encontrado no link: https://cinema.uol.com.br/noticias/redacao/2016/08/31/ryan-gosling-e-emma-stone-espalham-musica-e-romance-na-abertura-de-veneza.htm ).

Ryan Gosling e Emma Stone em cena do musical

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Bruno Ghetti
Colaboração para o UOL, em Veneza (Itália)

O 73º Festival de Veneza começou nesta quarta-feira (31) em clima de romance e saudosismo, mas também com toques de transgressão. Todos esses elementos fazem parte do musical “La La Land – Cantando Estações”, do americano Damien Chazelle (de “Whiplash – Em Busca da Perfeição”), que abriu, pela manhã, a mostra competitiva. E que também deu o que talvez seja seu primeiro passo para uma provavelmente bem-sucedida temporada de prêmios em Hollywood.

Mesmo antes da estreia, o filme vinha sendo apontado como nome forte nas premiações americanas, que começam no trimestre que vem. O longa de Chazelle tenta aproveitar o caminho trilhado nos últimos três anos por “Gravidade”, de Alfonso Cuarón, “Birdman”, de Alejandro G. Iñárritu, e “Spotlight – Segredos Revelados”, de Tom McCarthy, todos exibidos em Veneza e, em seguida, bastante premiados nos EUA – alguns, inclusive, com o Oscar. Nome em ascensão em Hollywood, Chazelle, 31, parece ter sido escolhido a dedo pela curadoria do festival para dar prosseguimento a essa nova tradição veneziana.

A trama não tem nada de novo: é sobre uma garçonete (Emma Stone) que sonha em se tornar uma estrela de Hollywood. Ela conhece um aspirante a músico (Ryan Gosling), que só aprecia o jazz à moda antiga, mas que precisa viver de bicos tocando hits comerciais em restaurantes de gosto duvidoso. Há alguma tensão sexual entre os dois, que logo se apaixonam, vivendo um romance que será comprometido quando um deles alcançar o sucesso.

O filme é um manancial de referências cinematográficas, sobretudo aos musicais clássicos americanos. Mas não apenas – aliás, talvez seja um longa francês, “Os Guarda-Chuvas do Amor” (1964), de Jacques Demy, o grande eixo de inspiração sobre o qual a obra de Chazelle foi construída. “La La Land” traz o mesmo tipo de cores berrantes, um estilo semelhante de romance melancólico e até canções à la Michel Legrand (as músicas são de Justin Hurwitz, autor da trilha de “Whiplash”).

“Hoje em dia, mais do que nunca, precisamos de romance e esperança”, disse Chazelle, durante conversa com jornalistas, justificando a escolha pelo gênero musical. “A música sempre me inspirou muito. No filme, mesmo nas partes sem canções, eu queria que também elas soassem musicais, como que em um grande contínuo em que a música nunca parasse”, explicou o diretor, ressaltando o cinema enquanto “linguagem dos sonhos”.

“O filme não tem nada de cínico”, completou Emma Stone. “É sobre ter sonhos e esperanças e ir à luta para realizá-los. Os jovens de hoje são céticos demais. Tudo o que espero com esse filme é que os [jovens] que assistirem mantenham seus sonhos e trabalhem duro”, arrematou.

O longa começa com um alucinante número musical em um engarrafamento de uma avenida de Los Angeles, todo filmado em plano-sequência (ou seja: uma cena sem cortes). Entre coreografias inesperadas e gente dançando em cima de carros, a cena traz pessoas “normais” que, de repente, se entregam à música no meio do congestionamento. Na letra, expressam sua vontade de se dar bem na capital mundial do show bizz. A cena arrancou calorosos aplausos da imprensa.

Mas, depois, o filme se torna mais convencional – ao menos aparentemente. Os números musicais são pouco marcantes (e está aí o grande problema de se começar um filme de forma tão explosiva como aqui). Em muitos deles, chega a ser intrigante a falta de coreografias, mas quando finalmente vemos Stone e Gosling tentando sapatear e fazendo um desajeitado duo no Griffith Park, entendemos por que Chazelle as evitou o quanto pôde.

É justamente isso um dos pontos mais interessantes do filme: o escapismo existe, mas pela metade. A vida real está sempre à espreita, seja na falta de jeito dos atores ao dançar e cantar, seja nas desilusões das personagens. O filme é uma grande fantasia, mas com os pés no chão; apesar do aspecto de faz de conta, traz elementos realistas, efeito que Chazelle diz ter procurado propositalmente.

“Quais as emoções do mundo moderno podem gerar música? É isso que eu quis fazer com o meu filme”, disse o cineasta. “Quisemos fazer algo poético a partir dos problemas reais das pessoas”, completou, deixando claro o cuidado para não fazer um musical fora de seu tempo, mas preservando a magia inerente a esse gênero cinematográfico.

Em “Whiplash”, Chazelle já havia mostrado ser é um cineasta de sentimentos fortes; o melhor do seu cinema está nos rompantes, nos excessos. Não é muito dotado para a leveza, o equilíbrio, e por isso mesmo “La La Land” funciona mal nas cenas mais delicadas, sutis. A primeira metade traz vários tropeços, mas o filme cresce muito em seguida e consegue forjar uma personalidade mais autêntica a partir da metade, quando os dramas dos protagonistas se intensificam. Termina como um belo musical com toques transgressores.

À imprensa, Emma Stone fez questão de elogiar o colega de elenco Gosling, que não pôde estar em Veneza para promover o longa: “Ele conduz uma dança como ninguém”. E foi ainda mais efusiva nas palavras dirigidas ao diretor: “Damien é jovem, talentoso e também o diretor e roteirista mais colaborativo com quem já trabalhei. É sempre aberto a ideias. E isso sem perder sua visão de artista sobre o filme”, disse. Em seguida, como que notando um tom excessivamente elogioso em seu comentário, encarregou-se ela mesma de quebrar o tom solene: “Estou brincando: a verdade é que ele é um lixo!”. Os jornalistas gostaram mais dessa segunda linha de comentário e caíram na gargalhada.

No geral, “La La Land – Cantando Estações” parece ter causado uma boa impressão nos críticos. O longa já tem distribuição garantida no Brasil, com previsão de estreia para janeiro, época do ápice da temporada de prêmios americanos.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Top 5 alternativo de 2016


Todo ano costumo fazer no Facebook um Top 10 com os melhores filmes do ano, mas também uma lista mais descontraída, com alguns Top 5 com categorias alternativas, destacando filmes que foram ou supervalorizados ou pouco badalados ao longo do ano. A lista obviamente se concentra em filmes que tiveram destaque crítico, e não em projetos natimortos ou muito pequenos; a escolha dos piores filmes, por exemplo, tem mais a ver com a excessiva pretensão do projeto (e com a injustamente boa recepção que tiveram por alguns críticos) que propriamente com a qualidade fílmica em si (a ausência de blockbusters de herois é prova disso; como nem considero objetos criticamente relevantes, estão fora do jogo). Seguem as listas

Os “não rolou” (não são lá "ruins", mas ou foram supervalorizados pelos colegas ou meu radar de “truque” apitou forte): 
- "Carol" (preocupação formal demais, paixão/amor/calor de menos) 

- "Boi Néon" (o filme que devia operar no nível do instintivo, mas que é intelectualizado, pré-calculado, superescrito em excesso)  

- "De Longe te Observo" (outro que talvez funcionasse quando era roteiro – mas, como filme, não ‘acontece’) 

- "A Chegada" (uma gigantesca ‘bar forçation’ [como diriam os britânicos, rsrs]) 

- "Na Ventania" (oh, que lindo preto e branco estetizzzzzado zzzzzz)

As decepções (expectativa alta, mas quebrei a cara)
- "As Montanhas se Separam" (não dá pra aceitar um filme com simbolismos do naipe: ‘Para representar a ganância capitalista, vou batizar um personagem de... Dólar!’. Sério, Jia: tu é capaz de coisa BEM melhor) 

- "O Filho de Saul" (filme de quem espera na porta da sala pra receber os cumprimentos pelo grande aporte à ‘Arte com A maiúsculo’) 

- "Youth" (wtf Sorrentino?? Vontade de bandear pro lado dos haters) 

- "O Botão de Pérola" (a fórmula deu megacerto em "Nostalgia da Luz", mas aqui o malabarismo do roteiro simplesmente não funciona) 

- "BR 716" (Domingos Oliveira é um chato genial e adorável, mas "Caio Blat imitando Domingos Oliveira" é das coisas mais insuportáveis do mundo)

As surpresas (não dava nada por eles, mas adorei)
- "Elis" (super assistível e com Andréia Horta carregando o mundo nas costas)

- "Nise, o Coração da Loucura" (simples e muito tocante; cinema convencional da mais alta qualidade) 

- "Rua Cloverfield 10" (o blockbuster [sem ser] do ano)

- "Amor e Amizade" (simplesmente delicioso – talvez o melhor filme que ninguém viu do ano)

- "Florence, Quem É Essa Mulher?" (ri bastante; traz um ótimo Hugh Grant e a melhor Meryl em anos)

A lista da desonra (nem precisa de comentários) 
- "O Demônio de Néon"

- "Joy"

- "Tudo Vai Ficar Bem"

- "A Grande Aposta"

- "Capitão Fantástico"


 


sábado, 17 de dezembro de 2016

TOP 10 de 2016


O dez melhores filmes de 2016 (que entraram em circuito comercial no Brasil ao longo do ano).

1. "Cemitério do Esplendor" (A Weerasethakul)
2. "As Mil e Uma Noites: Volume 2, o Desolado" (M. Gomes)
3. "Elle" (P. Verhoeven)
4. "Sangue do Meu Sangue" (M. Bellocchio)
5. "Fogo no Mar" (G. Rosi)
6. "A Corte" (C. Vincent)
7. "Animais Noturnos" (T. Ford)
8. "É Apenas o Fim do Mundo" (X. Dolan)
9. "O que Está por Vir" (M. Hansen-Love)
10. "Mate-me por Favor" (A.R. Silveira)

Menções honrosas:
"Curumim", "Spotlight", "Que Viva Eisenstein", "Amor e Amizade", "Ralé"

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

TOP 10 nacional de 2016


Ao menos no cinema nacional, 2016 foi um ano bem bom. A irregularidade continua um problema generalizado, mas todos os desta lista vieram com trechos muito inteligentes, instigantes, comoventes (alguns até brilhantes). 

O meu TOP 10 nacional de 2016 seria algo assim (alguns deles já foram resenhados neste site; os links estão nos títulos):

Cena do sensacional "Mate-me por Favor", campeão nacional


1- "Mate-me por Favor" (Anita Rocha da Silveira)
4- "Fome" (Cristiano Burlan)
5- "Meu amigo Hindu" (Hector Babenco)
7- "Cinema Novo" (Eryk Rocha)
8- "Aquarius" (Kleber Mendonça Filho)
9- "São Paulo em Hi-Fi" (Lufe Steffen) 
10- "Nise, o Coração da Loucura" (Roberto Berliner) e "A Despedida" (Marcelo Galvão)

Menção especial: "A Paixão de JL" (Carlos Nader) 


sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Crítica: "BR 716"

(idem, 2016), de Domingos Oliveira

Caio Blat é a versão birrenta do diretor em "BR 716"

Assistir a "BR 716" é como ir sóbrio a uma festa cheia de gente chata, mas de um amigo muito querido: suportável, porém penoso. O tal amigo é Domingos Oliveira, o diretor que tantas vezes nos entregou momentos e filmes deliciosos, fontes de diversão, inteligência e leveza, que na memória estão guardados com muito afeto. Em "BR 716", ele parece se divertir a valer em sua (auto)celebração, mas os amigos que chamou para participar da noitada são intragáveis. E o que é pior: ele mesmo, a razão da nossa presença ali, não dá as caras. Fisicamente e em espírito: falta Domingos Oliveira ao filme.

O que é algo estranhíssimo, já que "BR 716" é uma obra bastante personalista, que vasculha a juventude do cineasta. E que, em teoria, se parece com todos os outros que ele já fez; nem precisava do seu nome nos créditos para sabermos que ele é o diretor. Mas desta vez, nunca compartilhamos daquele estado de embriaguez dos personagens de seus filmes (e ao qual nos deixamos levar com prazer); seguimos sóbrios, o que nos força a observar algo para que, antes, fazíamos vistas grossas: os defeitos do filme.

Todos os filmes de Domingos são imperfeitos, mas aqui, é como se os problemas se exibissem sob lente de aumento: a imprecisão técnica, as falhas de ritmo, o protagonista autocomplacente, a ladainha que não cessa. E várias frases, que sempre passavam por brilhantes, aqui se revelam ocas (levanta nossa suspeita de que sempre o foram, mas apenas eram ditas de forma mais sedutora, quando nas bocas do próprio Domingos ou da fantástica Priscilla Rozenbaum).

Todas essas falhas sempre foram perceptíveis antes, mas sempre preponderava nos filmes um certo charme autobenevolente de Domingos – sua lábia e o zest daquela galeria de personagens humanos até demais; seus filmes eram um prazer exatamente nessas imperfeições, na sua (carioquíssima) nonchalance diante da seriedade ou mesmo da competência técnica.

Aqui, não há charme algum; seus personagens, que antes pareciam "humanos", agora são pessoas imaturas e mimadas. E birrentas. Há apenas uma sensação de déjà vu – sendo que o já visto antes era bastante melhor. 

O longa revisita a juventude boêmia de Oliveira, quando morava no número 716 na rua Barata Ribeiro (o BR do título), em Copacabana. Bebia muito e vivia dando festas a amigos que se embriagavam tanto quanto (ou até mais que) ele próprio. Como sempre, é um longa sobre a amizade e as dificuldades do amor.

Oliveira disse que o filme é em preto e branco porque, em cores, ficariam muito evidentes as falhas impostas por limitações financeiras para uma reconstituição de época. Não adiantou nada: o filme continua sem ter absolutamente nada da década de 60 – dos detalhes de cenografia aos estilos de atuação. E a fotografia, que ele diz ser em P&B, na verdade é de um cinza pálido que torna o filme ainda menos instigante. Há de vez em quando alguns efeitos interessantes, como quando uma personagem, no meio de um diálogo com Caio Blat (o alter ego de Domingos), se vira para a câmera e, brechtianamente, fala com o público/a câmera subjetiva. Ou quando o personagem de Blat, ao se afastar da câmera, se desfaz em um efeito óptico e vira uma mancha negra pixelada, em um fundo branco estourado. Mas fora isso, pouco se salva; tudo é de uma enorme chatice.   

Caio Blat é tão bom ator e imita o cineasta tão bem que, em cena, é como que um Domingos Oliveira melhorado – com maior potencial dramático, melhor fluência verbal e mais domínio técnico que o original (só o sotaque paulista ele não consegue disfarçar). Mas sua composição é completamente desprovida de naturalidade; é como um espelho, com uma imagem aperfeiçoada da pessoa verdadeira, mas também uma imagem sem vida, sem dimensão e nem o magnetismo que só os seres viventes possuem. O personagem é um martírio (nos faz pensar o quanto talvez os outros vividos pelo próprio Oliveira também não deviam ser e apenas não reparávamos - ou perdoávamos por simpatia pelo Oliveira original). 

Os outros atores também estão decepcionantemente ruins – a talentosa Lívia de Bueno é subaproveitada, no papel de uma lesbian chic sessentista, e Sérgio Guizé tem uma presença vibrante como um revolucionário de esquerda (dos Jardins), mas seu texto é chato demais para ele segurar as cenas que tem. Já Sophie Charlotte está completamente equivocada – deslocada, até; ela não capta em nada o espírito da Copacabana dos anos 60. O que, na verdade, nem é lá um problema em si, já que todo o resto do filme também destoa – e muito – daquela época.

Logo no começo do filme, uma narração em off (a voz de Domingos? ou a de Caio Blat imitando o diretor?) faz um alerta - algo parecido com: "Foi muito difícil escrever este roteiro porque eu bebia demais na década de 60 - e em memória de bêbado não se pode confiar". Nem precisava ter avisado: certamente ele teve uma juventude bem mais interessante que a que ele nos mostra.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Crítica: "Elis, o Filme"

(idem, 2016), de Hugo Prata

Andreia Horta, em "Elis"

As cinebiografias de ídolos pop são um formato ingrato. Pouquíssimas feitas até hoje foram verdadeiramente memoráveis (sejamos francos: qual outra além de "Touro Indomável"?); a maior parte costuma ser lembrada como veículos para atores que impressionam pela "entrega" aos personagens – ou pelo grande fiasco daqueles que não correspondem às expectativas. Quase sempre recaem no mesmo esquema da narração factual dos trechos mais marcantes da vida do retratado. E muitas vezes se chega ao fim do filme sem a mais parca ideia de quem ele foi: qual era seu drama, o que o moveu.

"Elis, o Filme" tem sido amplamente atacado por ser mais uma dessas biopics pouco imaginativas, e há certa razão nessa reprimenda. O longa de estreia de Hugo Prata evita riscos e tem os dois pés na convencionalidade. No entanto, não é o “TV movie” chapa branca e sem criatividade que muitos críticos têm apontado.

É importante deixar claro que, de fato, o roteiro (de Prata, Luiz Bolognesi e Vera Egito) opera o tempo todo no nível da trivialidade: conta a história de uma gaúcha sonhadora, que chega ao Rio acompanhada do pai, na exata semana do Golpe de 64 – a mesma jovem que, muito em breve, soltaria a voz e faria enorme sucesso no Beco das Garrafas, depois nos festivais e na TV, tornando-se logo um dos expoentes máximos da nossa canção. Após alguns (muitos) altos e (poucos) baixos na curta carreira, a cantora temperamental, mas vulnerável, dá um enorme susto nos fãs, quando, aos 36, morre em seu apartamento, vítima de uma overdose de álcool com cocaína.

(Já é um avanço que o filme fale explicitamente da causa da morte de Elis; em um especial na Globo,  há alguns anos, o motivo foi bizarramente omitido, bem como em uma recente exposição de fotos da cantora no CCSP, em que, na linha biográfica, constava apenas que, do nada, um belo dia Elis Regina morreu – como se morrer aos 36 anos fosse algo totalmente corriqueiro. Felizmente, a família da cantora parece ter desistido da pueril tentativa de reescrever essa parte de sua história).

A gramática é mesmo televisiva, mas o filme tem algo de essencialmente cinematográfico: demanda escala, grandeza, tela grande e som alto para impactar. E, visto nessas condições, consegue causar um arrebatamento totalmente cinematográfico (eu acredito piamente que, na TV, o filme jamais funcionará com a mesma força que na sala escura, com tela grande).

Cena de "Elis, o Filme"

O roteiro, apesar de didático e esquemático, consegue ir ao essencial em muitas cenas – o que, em se tratando de biografias, não é algo a se desprezar. A chave-mestra está em uma discussão em que o músico César Camargo Mariano (Caco Ciocler), segundo marido de Elis, tem com a cantora, definindo seu grande problema: “Você não sabe o que você quer na vida!”. Pronto: está aí aquele que talvez fosse o drama essencial do ser humano Elis Regina – uma pessoa em busca de si, de se encontrar, eternamente displaced e mudando de opiniões, amizades e repertórios. Qualquer filme sobre a cantora que ignorasse isso seria incompleto, incompreensivo, raso. Isso era o essencial de Elis, talvez a principal fonte de suas angústias e de sua insegurança.

“Meu negócio é cantar”, Elis dizia muito recorrentemente, mas isso esconde uma enorme falta de saber quem ela era, o que queria, onde gostaria de chegar. Pois o roteiro acerta na mosca ao trazer isso para o filme. O grande problema (e que também é minha principal ressalva ao filme) é que esse caráter fica, em geral, apenas no nível das falas; não aparece no âmago das cenas propriamente ditas. Quando a questão é mencionada, nunca tem o devido protagonismo; da forma como Prata encena e edita, parece quase sempre que Elis era movida ou por um enorme ego ou pelo simples temperamento explosivo. E só.

Ego inflado e gênio forte: não há dúvida de que Elis tinha as duas coisas – e de sobra. Mas querer atribuir tudo o que a cantora fazia a isso é limitado (e injusto). O roteiro dá a dica em vários momentos: Elis, sobretudo na parte final da vida, reclamava muito dos outros. Estava sempre vociferando contra alguma terceira pessoa do plural (os militares, os jornalistas, as gravadoras), que, muitas vezes, não lhe eram tão hostis como ela gostava de pintar (e, talvez, de achar que fossem). Seu grande inimigo era ela mesma. Mas o filme não consegue encontrar uma solução para essas indicações do script; nas cenas, as reclamações surgem como descrições de situações pontuais, de registros de fatos da vida de Elis – quando, no fundo, deveriam ser a indicação de um estado de espírito. Prata falha lastimavelmente nesse sentido.

Uma vida tão cheia de episódios e personagens importantes fatalmente precisa ter muitos deles sacrificados ao ir para o cinema. Não se vê no longa, por exemplo, Milton Nascimento nem Rita Lee, dois de maiores amigos da Pimentinha; Vinícius de Moraes é só citado, e João Bosco e Aldir Blanc, nem isso. O célebre álbum "Elis & Tom" é ignorado, e é como se os grandes shows "Saudade do Brasil" e "Trem Azul" (seu último) nem tivessem existido. Até aí, ok: a necessidade de concisão pode explicar. Mas não há exigência de roteiro que justifique por que seu casamento com o companheiro mais duradouro, César Mariano, seja tratado com tanta superficialidade e desdém pelo script. O personagem é o pior do filme; tem uma única boa cena – muito simples e delicada, por sinal –, quando declara indiretamente seu amor a Elis, quando ambos estão sentados ao piano. Mas no geral, é de uma passividade bocejante – entende-se porque a cantora o abandonou (embora, na vida real, a separação tenha sido muito mais dura e traumática que o filme deixa a entender; ele foi o grande amor da gaúcha, e não Ronaldo Bôscoli, como o filme muitas vezes quer fazer crer).

O mulherengo Bôscoli (Gustavo Machado) tem muito mais destaque no longa, e em termos dramáticos, a escolha funciona. A tensão sexual entre Machado e Horta é faiscante, e se a primeira metade do filme é bem melhor e tão prazerosa é graças à interação dessa dupla passional e impetuosa (Machado está perfeito em seu deboche e malandragem cariocas, como Mateus Solano também esteve foi quando viveu Bôscoli na TV).

Gustavo Machado e Andreia Horta em cena do filme

Outras presenças dignas de nota: Ícaro Silva, que tem uma ginga sensacional em suas poucas cenas como Jair Rodrigues; Zécarlos Machado, como o pai da cantora, Romeu (o único problema é que o sotaque, aqui e ali, parecem mais a fala italiana de novela das oito que de um gaúcho; mas a atuação, em si, é memorável); Julio Andrade, mais uma vez acima da média, como o coreógrafo Lennie Dale.

E há o maior trunfo de todos: Andreia Horta. A atriz faz um trabalho impressionante de mimetismo, mas não se contenta com isso: tem uma raça, uma vontade, um "sangue nos olhos" de fazer a sua Elis "acontecer" que ultrapassa esse objetivo; sua Elis não apenas "acontece" como se torna um "grande acontecimento". O desafio de interpretar um mito como nossa maior cantora não era fácil, mas Horta mergulhou visceralmente em sua caracterização. O jeito de falar e o gargalhar com os dentes arreganhados e o nariz franzido: é difícil pensar em alguém que pudesse imitá-la tão bem (nem Maria Rita, quando canta à la Elis, é capaz de mímese tão perfeita).

Horta tem o tipo de "entrega" (o termo é cafona, mas não há outro para substituir) que faz lembrar as de Diana Ross, como Billie Holiday, em "O Ocaso de uma Estrela", e Bette Midler, como a cantora inspirada em Janis Joplin, de "A Rosa". Ross e Midler cantavam com a própria voz, mas Horta, não – o que foi uma opção extremamente sábia; afinal, quem poderia cantar como Elis Regina se não apenas a própria? No filme, é essencial mostrar por que aquela mulher se distinguia das outras cantoras; e quando ecoam trechos da voz verdadeira de Elis, em momentos estratégicos, a compreensão é imediata.

Há uma excelente cena de explosão sentimental, quando, na frente da boate Bottle's, Elis bate boca com Bôscoli, que lhe pergunta, com a ironia peculiar: "Tá pensando que é quem? A Barbra Streisand?". Ao que Elis responde: "Tô!", dito com tanta convicção que talvez a própria Streisand, se ouvisse, duvidasse por alguns segundos que ela é ela mesma. E Horta alterna os momentos de erupção emocional e de meiguice como só a própria Elis fazia... Se as cenas da cantora mais amargurada da parte final não funcionam tão bem como a mais expansiva do começo, provavelmente é porque o roteiro e o diretor não souberam fazer o crescendo de forma suficientemente eficaz. 

O filme decai no fim, até por uma certa perda de alegria e vitalidade da protagonista. A cena dos instantes finais são convencionais, mas só o fato de não ser um fim piegas e hagiográfico já é algo a festejar. Ao contrário: termina onde e na hora que tinha que terminar (e há um certo alívio do peso do fim com cenas musicais durante os créditos). Saímos da sala tocados e orgulhosos de termos tido em nossa música uma voz tão poderosa. E felizes de que, no cinema, agora temos uma atriz capaz de defender uma personagem com tamanho empenho.

domingo, 27 de novembro de 2016

Crítica: "Sangue do Meu Sangue"

(Sangue del mio Sangue, 2015), de Marco Bellocchio

Cena de "Sangue do Meu Sangue"

Foi fácil ouvir os aplausos ao fim da sessão de imprensa no Festival de Veneza 2015 a "Sangue do Meu Sangue", filme de Marco Bellocchio, que só agora, com bom atraso, estreia por aqui. Mas se a sala não estivesse tão barulhenta com as palmas, talvez fosse possível ouvir algo mais: o barulho dos cérebros dos jornalistas, trabalhando duro em busca de compreender o que exatamente o cineasta italiano quis dizer com sua história – e seu misterioso final, principalmente.

O título do longa é uma piada extrafílmica: é que dois dos filhos do diretor (Pier Giorgio e Elena Bellocchio, ambos figuras de fotogenia e charme inesperados) têm papeis de destaque na trama. A história é dividida em duas partes. Ambas se passam em Bobbio, Emilia Romagna (terra natal do cineasta), mas em dois períodos históricos distintos. 

A primeira parte se desenrola no século 17, quando uma religiosa seduz um padre, que, por isso mesmo, comete suicídio. Como punição, a moça é condenada pela rígida Igreja Católica da época a passar o resto de seus dias aprisionada em um cubículo, atrás de um muro de tijolos. A segunda metade se passa nos nossos dias: um vampiro milionário, cuja fortuna foi acumulada após décadas sugando dinheiro (além do sangue) de outras pessoas, chegou a uma idade tão avançada que seu fim está próximo – mesmo que ele já seja, a rigor, um morto-vivo.

O longa apresenta as duas histórias em estilos bem diferentes: a primeira é mais sóbria, lírica, algo soturna; a segunda é bem mais leve e satírica, quase histriônica em sua comicidade. As duas se equivalem em qualidade, mas poderiam facilmente ser partes de dois filmes distintos.

Mas não apenas são parte do mesmo filme como também possuem fortes (embora nem sempre fáceis de notar) conexões. As duas lidam com a questão do poder (o religioso na primeira, o econômico na segunda), e talvez seja exatamente isso o que Bellocchio busque dizer com o seu filme: o tempo passa, muita coisa muda, mas os poderosos continuam dando um jeito de se reinventar, de modo que sempre há grupos (às vezes os mesmos, mas rearranjados) explorando os demais. Mas isso é apenas um ponto de partida para investigações mais profundas sobre o significado e as conexões entre a trama sobre a bruxa do passado e o vampiro do presente.

Bellochio não tem o menor interesse de tornar as coisas fáceis para seu público: inicia alguns caminhos, mas logo abandona a plateia sozinha, no meio da floresta – cabe a nós cortarmos o mato diante de nós e chegar ao ponto final do trajeto (ou morrer, exaustos e perdidos, no meio do matagal). 

Talvez a segunda opção tenha sido mais comum: embora seja um filme extraordinário, não parece ter tido muita adesão da crítica (sobretudo a nacional), que o têm injustamente considerado um filme "menor" de Bellocchio. Eu vejo ao contrário: para mim, é um dos mais instigantes e inspirados longas desse grande diretor italiano.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

"Curumim": entrevista com o diretor

(idem, 2016), de Marcos Prado*

Marco Archer, o Curumim, em cena do filme

No final da sessão da sessão de estreia do documentário “Curumim”, na Berlinale 2016, o diretor carioca Marcos Prado recebeu cumprimentos de uma plateia comovida. “Obrigada! Seu filme me tocou muito”, disse uma mulher com os olhos vermelhos e lacrimosos (quando o filme acabou, podia-se ouvir facilmente seus soluços na sala). Pouco depois, o diretor de um festival indonésio fez um convite: “Queremos muito passar seu filme lá. Toma o meu cartão!”. Prado agradeceu e guardou o papel. “Será que eu vou ter coragem de levar meu filme pra Indonésia?”, perguntou a si mesmo, com um sorriso tenso.

Compreende-se a indagação: “Curumim” certamente não será visto com bons olhos pelas autoridades daquele país. O documentário conta a história de Marco “Curumim” Archer, brasileiro condenado à morte na Indonésia por tráfico de drogas – ele morreu fuzilado em janeiro de 2015, após um penoso período de 11 anos em um presídio de segurança máxima isolado em uma ilha.

O filme é ao mesmo tempo a curiosa história pessoal de Curumim e um registro de sua rotina no “corredor da morte”. Por tabela, ataca dois outros temas espinhosos: mostra a corrupção no sistema carcerário e judicial indonésio e faz uma grande crítica à pena capital. “Sou contra a pena de morte em todos os casos”, disse o cineasta, logo após a aplaudida sessão.

“Os crimes hediondos têm de ser punidos com prisão longa ou perpétua. Mas quando se executa uma pessoa, primeiro você dá poder para um Estado de te eliminar da sociedade, colocando pistas falsas, etc. Segundo: você pode provar o contrário – quantos condenados já não conseguiram comprovar sua inocência antes da morte?”

O projeto do longa surgiu quando o próprio Curumim convidou Prado para contar sua história. Os dois já se conheciam desde a juventude, nos anos 80, quando ambos praticavam surfe e frequentavam os principais “points” das praias cariocas. Nascido em uma família de classe média alta, Curumim sempre gostou de levar uma vida aventureira. Na adolescência, foi expulso 14 vezes do colégio. Como ele mesmo diz, sempre foi um “fio desencapado” por ser filho de um alcoólatra e uma mãe ausente.

Sua personalidade expansiva e seu senso de humor o tornaram um jovem carismático, que gostava de curtir a vida com amigos, no melhor estilo playboy. Para bancar seus luxos, começou a ganhar dinheiro com pequenos tráficos nos anos 80. “No Brasil, uma geração inteira comprou skank com ele”, relembra o cineasta. Curumim foi parar na Indonésia quando tentava conseguir dinheiro para (segundo ele mesmo) pagar dívidas que havia contraído em um hospital em Cingapura, onde ficou internado por meses, após um acidente de paraglide. Aceitou traficar 15 quilos de cocaína, mas levantou suspeitas no aeroporto de Jacarta. Conseguiu fugir dali e passou dias como foragido – até ser finalmente preso pela polícia indonésia e levado para a prisão, onde seu drama começou. Uma trajetória tão cinematográfica, é claro, tinha que acabar nas telas.

“A ideia original era para ser um filme de ficção. Ele próprio queria isso, sempre dizia: ‘Minha história pode virar um filme incrível!’ ”, conta Prado. Depois de optar pelo formato documentário, o diretor pretendia dividir a história em três partes: a vida de Curumim antes de ser preso, a rotina no presídio e o recomeço após ganhar liberdade. “Ia ser uma coisa mais biográfica, mas não consegui nem uma entrevista formal com ele”, diz o diretor, que, no entanto, chegou a ir ao presídio para visitar o amigo (conseguiu entrar se passando por um pastor evangélico).

Cena do documentário

A maior parte das imagens em que o condenado aparece encarcerado foram feitas com uma câmera clandestina, comprada no mercado negro da prisão, captadas por um colega de cela italiano (hoje já em liberdade; ele, aliás, estava presente na première do longa). Segundo o italiano, é relativamente fácil conseguir nesse “mercado” regalias diversas, inclusive... drogas. O ex-presidiário reconhece que só obteve a própria liberdade à base de muito suborno. O filme conta com imagens de Curumim na cadeia, depoimentos de quem o conhecia e algumas reconstituições de cenas – uma delas traz uma estilização de como teria sido o fuzilamento.

O personagem não é mostrado como um “mártir”, mas uma pessoa sem limites e algo “destrambelhada” que pagou um preço alto demais pela própria irresponsabilidade. O longa humaniza, mas evita “sacralizar” o personagem. “Tudo da história dele está ali, ele mesmo fala o que já fez pelas cartas [mostradas no filme]. Não tem como santificar”, diz o cineasta. “Mas se eu consegui humanizar ele ao longo dessa uma hora e 40 minutos, já estou satisfeito.”

Prado foi muito elogiado em seu primeiro longa, o documentário “Estamira” (2004), sobre uma catadora de lixo, mas o sucesso passou longe do filme seguinte, a ficção “Paraísos Artificiais” (2012). Ele também é conhecido como produtor de “Tropa de Elite” (2007) – que, aliás, ganhou o Urso de Ouro em Berlim há nove anos. Desta vez, Prado não concorre ao prêmio máximo (“Curumim” está na mostra paralela Panorama), mas o frio na barriga seja ainda maior que em 2007. “São emoções diferentes vir como produtor e como diretor. Apesar de o cinema ser uma arte coletiva, na direção, se o filme ficou bom, a ‘culpa’ é sua e de todo mundo. Agora se fica horrível, a culpa é só sua”, diz.

*Filme visto no Festival de Berlim 2016; este texto é uma versão expandida do publicado no UOL, no dia 17.fev.2016 (link: http://cinema.uol.com.br/noticias/redacao/2016/02/17/saga-de-brasileiro-condenado-a-morte-na-indonesia-comove-plateia-em-berlim.htm).

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

MOSTRA 2016: Lançamento do livro "100 Melhores Filmes Brasileiros"


Na última sexta (dia 28), ocorreu o lançamento oficial em São Paulo, na livraria Blooks, do shopping Frei Caneca, o livro "100 Melhores Filmes Brasileiros" (editora Letramento). A publicação é uma parceria entre a Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e do Canal Brasil e traz o resultado de uma eleição ocorrida em 2015 entre os membros da entidade sobre os maiores filmes já feitos no Brasil.

Cada crítico associado fez uma lista com seus 25 nacionais preferidos. Os que tiveram melhor pontuação entraram no livro – cada um foi resenhado por algum membro da Abraccine ou por um crítico convidado. "Limite", de Mário Peixoto, foi o número um (a lista inteira está neste link).

Eu participei da eleição e contribuí com um artigo sobre o filme "Mar de Rosas" (1978), da cineasta Ana Carolina. É um dos poucos longas da lista dirigidos por uma mulher. É também uma obra hoje meio esquecida, mas que merece – e muito! – ser redescoberta. Ainda hoje é atual e surpreendente; um filme especialíssimo.

Norma Bengell, Cristina Pereira e Hugo Carvana, em
cena de "Mar de Rosas" (dir. Ana Carolina)

(Uma curiosidade: todos os filmes dirigidos por mulheres tiveram no livro críticas escritas também por mulheres... Eu fui a única exceção.)

Não tive tempo de ler os demais artigos ainda, mas o farei em breve. Por ora, deixo aqui lista com os 25 filmes nacionais preferidos que eu submeti à Abraccine na época da eleição (essa lista muda sempre – aliás, já não seria a mesma se eu a elaborasse agora; mas é bem representativa do meu pensamento cinematográfico do jeito que está!).

1- Noite Vazia (1964)

2- Sem Essa, Aranha (1970)

3- Terra em Transe (1967)

4- Matou a Família e Foi ao Cinema (1969)

5- Lúcia McCartney, uma Garota de Programa (1971)

6- Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981)

7- As Amorosas (1969)

8- São Paulo S/A (1965)

9- Cabra Marcado para Morrer (1984)

10- Cuidado, Madame (1970)

11- Limite (1931)

12- A Intrusa (1979)

13- Um Céu de Estrelas (1996)

14- Lavoura Arcaica (2001)

15- Febre do Rato (2011)

16- Di (1977)

17- Guerra Conjugal (1974)

18- Um Anjo Mau (1971)

19- As Deusas (1972)

20- O Amuleto de Ogum (1974)

21- Mar de Rosas (1978)

22- A Mulher de Todos (1969)

23- Bye Bye Brasil (1980)

24- Ganga Bruta (1933)


25- Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977)
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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

MOSTRA 2016: Crítica: "Era o Hotel Cambridge"

(idem, 2016), de Eliane Caffé


Cena de "Era o Hotel Cambridge"

Os tempos atuais não estão muito para moderação, e nesse sentido é essencial que apareçam filmes como "Era o Hotel Cambridge". O longa de Eliane Caffé resgata um tipo de cinema abertamente partidário, combativo – quase "de tese". No caso, a tese de que pessoas a quem a sociedade nega possibilidades de moradia têm o direito de habitar espaços abandonados. É uma questão de humanidade e de dignidade – de respeito mínimo ao que de mais basilar existe na nossa Constituição ou mesmo em documentos internacionais como a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Pouca coisa me interessa menos no cinema recente quanto a já exauridíssima mescla de "realidade com ficção", que tem sido recorrentemente utilizada como forma de se compensar as partes falhas que um filme teria se fosse só ficção ou só documentário. (O que já permitiu excelentes experimentações formais no cinema se tornou com o tempo uma muleta para cineastas indolentes, em busca de aprovação crítica fácil). Mas no caso de "Era o Hotel Cambridge", o procedimento de misturar cenas reais com encenadas compõe um estranhíssimo amálgama que o enriquecem. Caffé e sua equipe entraram em um prédio ocupado por grupos sem teto e imigrantes e filmaram muito do que viram. Mas ficcionalizaram a maior parte das cenas, com um elenco que mescla profissionais (como José Dumont e Suely Franco) com não atores, estes ocupantes de verdade (que incluem líderes de movimentos de ocupação e imigrantes africanos, latino-americanos e palestinos).

O material bruto seria precioso o suficiente para um documentário "puro" – talvez o filme fosse até melhor se a diretora fizesse essa opção. Mas a criação ficcional que ela desenvolve suaviza a parte documental e permite que o espectador tenha um contato com um aspecto mais leve, de cotidiano, da vida daquelas pessoas. O filme se torna mais arejado.

A dramaturgia proposta por Caffé é bastante simples – simplória, até. E esquemática. Mas querer criar situações elaboradas ou ambíguas demais envolvendo aquelas vidas seria um erro. Se a dramaturgia do filme é composta de fiapos de história, isso não é à toa: afinal, o que podem levar essas pessoas marginalizadas que não apenas fiapos de vida?

O que não quer dizer que essas vidas não sejam complexas, muito pelo contrário: o são até demais – além de trágicas. Mas as situações pelas quais passam no dia a dia da ocupação, as lutas que enfrentam e os objetivos de vida que passam a ater não podem ser outra coisa que não "simples", já que são as mais básicas; são pessoas que querem um lar. E algum mínimo de conforto, de comida, de carinho, de diversão. São vidas de pessoas que não se podem se dar ao luxo de ter as "complicações" que o lifestyle burguês nos permite poder levar.

Exigir equilíbrio ou ponderação de um filme como "Era o Hotel Cambridge" é não compreender em nada seu sentido. Sua beleza está em suas falhas e na sua luta - na vontade de fazer justiça com pessoas que pagam um preço altíssimo por motivos pelos quais não têm culpa direta.

O filme começa com imagens de edifícios abandonados, pichados, decadentes, do centro de São Paulo. Termina com os mesmos prédios, porém com bandeiras de movimentos sociais estampados nas fachadas. São como flâmulas de confecção barata, mas que naquele contexto surgem gloriosas, imponentes, dando nova vida a locais antes esquecidos. Para quem acha absurda e criminosa a situação social do país de hoje em dia, é um final não só poético: é também catártico. Quem não se comove ao menos minimamente com um filme como este ou é um direitista incorrigível ou não tem um coração no peito (o que, em grande parte dos casos, é um belo de um pleonasmo).